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Comunicarte

Estranhos prazeres

Bastos H�lder Bastos, 16 de Janeiro, 1999

O homem trava o carro de repente. Sai, acelerado, e dirige-se ao condutor que vem imediatamente atr�s. Apontando para um outro ve�culo estacado no meio da estrada, vocifera: �Voc�s s�o testemunhas! Ele vem a provocar-me desde l� de tr�s!�

O provocador era um automobilista domingueiro de carro novo. Ultrapassara toda a gente parada em fila e quase causara, numa magra rua da Invicta, um choque frontal. Com o nobre e valente intuito de marcar a sua posi��o, o seu territ�rio (como fazem os hipop�tamos), atravessou-se � frente do provocado. O jardim estava ali, do alto dos seus seculares pl�tanos, assistindo, incr�dulo, ao desenrolar da cena.

O caso, que podia, como tantas outras situa��es macabras da recente hist�ria do asfalto nacional, ter acabado mal, ficou por ali. Cada um conseguiu, felizmente, p�r as suas manifesta��es g�stricas no bolso e todos foram � sua vidinha.

O n�vel da comunica��o do pa�s real na estrada, mas tamb�m nas ruas, nos caf�s, nas reparti��es p�blicas, anda por estas amarguras. Epis�dios de provoca��o, frequent�ssimos, em particular nas grandes urbes, v�o dando um colorido negro aos nossos dias. Os nomes que eles alegremente chamam uns aos outros com uma m�o no volante e outra espetada no ar!

A senhora que nos atende para tratar do IRS ou do selo autom�vel parece ter cada vez menos pachorra para nos aturar. Est� ali atr�s do balc�o h� horas a fio. Est� cansada e quer ir almo�ar. As palavras v�o saindo tortas, enquanto outros refilam por estarem h� meia hora � espera. Sente-se aquela tens�o inc�moda no ar quando se entra numa reparti��o cheia de gente.

O velhote de gravata, gel e pasta de pele ou o puto andrajoso de bon� � americana sobem e descem a tripeira Santa Catarina ou a alfacinha Augusta sem se dignarem perguntar a quem passa: �Desculpe, importa-se que eu escarre a vinte cent�metros dos seus sapatos?�

Os chicos-espertos que d�o golpe nas filas de espera dos autocarros, do Multibanco, dos Correios, pululam, prenhes de lata naquelas caras. Quem est�, enerva-se, discute, passa-se da cabe�a. N�o poucas vezes, tudo acaba bem com uma distribui��o equitativa de estaladas pelo ar.

Algo vai mal na forma como estamos e comunicamos em sociedade. Fora de portas, a cotovelada, o insulto, a malcriadez, a recrimina��o, a buzinadela constante, a falta de respeito e trato m�nimos, a intoler�ncia, ascendem � condi��o de normalidade. At� a comunica��o social, que tem enormes responsabilidades, fornece, por vezes, os piores exemplos. Que milagres esperar quando um jornalista, por sinal director de uma esta��o de TV, insulta outros, em p�blico, ao n�vel de textos com t�tulos como �Os tr�s canalhas�?

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