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Comunicarte
Horário digital
Helder Bastos, 10 de Julho, 1999
É um passo de gigante no panorama do jornalismo digital português. Depois de amanhã, abre, na Internet, o primeiro jornal diário multimédia gratuito publicado exclusivamente na rede mundial. Intitula-se «Diário Digital», mas a notícia é para dar em cima da hora. A informação será, segundo Luís Delgado, actualizada em permanência, 24 sobre 24 horas, de segunda a sexta-feira. O director do projecto diz mesmo querer bater a agência Lusa neste capítulo. Ora, aqui está o que qualquer publicação jornalística, tradicional ou digital, diária ou semanal, deveria fazer sempre que se instala no ciberespaço: aproveitar o «tempo de antena» contínuo, global e quase de borla para noticiar os acontecimentos o mais rapidamente possível. No entanto, isto tem os seus riscos. E não são poucos. A começar pelo rigor. A vontade de dar primeiro a notícia, de bater a concorrência, de ser o primeiro, pode, em certos casos, resultar no atabalhoamento do relato ou na falta de confirmação de dados. A questão tem vindo a lume em diversos espaços de debate sobre jornalismo. Porque se têm multiplicado, nalguns países, casos de claro atropelamento de regras jornalísticas elementares, como a de confirmar a informação que se dá. A ânsia de ser o primeiro tem, por exemplo, levado muitos jornalistas a apanharem boleia de boatos estapafúrdios, fáceis de espalhar através da Internet. Por cá, o «Diário Digital» já definiu, de forma clara, o seu principal concorrente, uma agência noticiosa. Mas, em países onde o jornalismo digital está mais desenvolvido, jornais, rádios, revistas e estações de televisão competem entre si para ver quem dá primeiro, mais e melhor na Net. Resultado: o número de notícias mortas ou feridas por atropelamento não pára de aumentar. Se o projecto de Luís Delgado não contribuir para estas estatísticas e, de facto, tal como está anunciado, explorar as potencialidades multimédia e interactivas do novo meio, teremos jornal. Depois, será interessante seguir dois aspectos: a forma como os jornalistas se vão adaptar aos novos ritmos e estilos de trabalho multimédia e o modo como a publicidade, única fonte de sustento, será captada e incorporada no produto. E esta é mais uma matéria que dá pano para mangas.
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