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TV com dioxinas

Bastos Helder Bastos, 3 de Julho, 1999

Se a moda internacional pegar por cá, vamos passar a consumir, para além de frangos contaminados, televisão com dioxinas. Estas substâncias nocivas para a saúde pública traduzem-se, no pequeno ecrã, na transmissão de reportagens infectadas com a virulência da falsidade. Um pouco por todo o lado, os telespectadores andam a comer gato por lebre.

O relato da golpada mais recente chega-nos do reino de Tony Blair. A venerável BBC preparava-se para transmitir, amanhã, uma reportagem totalmente forjada. Um jornal diário sensacionalista, do género tudo ao léu e fé no leitor, foi o autor da marosca. Com a intenção de desmascarar o tão apregoado rigor sério da BBC, «The Sun» teve a ideia de pôr uma das repórteres da casa a fingir de completa tarada sexual. A televisão mordeu o isco e fez o trabalho todo, entrevistando a respeitável «taradona» e respectivos amigos. Relatos de sexo delirante. Histórias picantes, embora inventadas. Audiência assegurada.

Este é apenas mais um lamentável episódio de mentira e descuido a juntar a tantos outros ocorridos nos últimos anos em estações de TV espalhadas pelo mundo inteiro.

No final do ano passado, ainda na Grã-Bretanha, uma produtora foi condenada em tribunal por ter vendido um documentário muito interessante sobre tráfico de droga. Era todo falso. Na mesma altura, em França, a TF1 exibia uma reportagem em que se viam bravos polícias perseguindo, detendo e interrogando um perigoso bando de traficantes. As cenas mais fortes não passavam, no entanto, reconstituições, com bons e maus da fita a fingir. Na Alemanha, um jornalista de televisão foi condenado por ter falseado uma vintena de reportagens. A máxima destes homens parece mesmo ser: se não há, inventa-se. E as histórias sucedem-se.

Não se julgue, no entanto, que a tara ficcional que se tem apoderado de muitos profissionais da informação é exclusiva da TV. Jornais, entre os quais se contam alguns de reputação internacional, como «The Washington Post», publicaram «estórias» completamente inventadas pela imaginação de repórteres. O mais caricato é que algumas chegaram a ganhar os mais altos prémios jornalísticos, como é o caso do «Pulitzer».

A competição desenfreada entre órgãos de comunicação social e mesmo entre os próprios jornalistas, a perseguição de audiências, a pressão do lucro, a ânsia do estrelato e o culto da cotovelada no parceiro contam-se entre as explicações para tamanhos desvarios mediáticos.

A lógica é perversa e perigosa. Quando informação, espectáculo, sensacionalismo e desonestidade se fundem, ficamos como os belgas: sem saber o que comer.

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