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Da «pizza»
ao cherne grelhado

Bastos Helder Bastos, 27 de Junho, 1999

«Demasiada informação
colocada no meu cérebro
demasiada informação
pondo-me louco».
The Police

Se quiserem estar bem informados, os cidadãos têm de dar no duro. Se se limitarem, do fundo dos seus sofás, a consumir passivamente os telejornais, o mais provável é acabarem mal esclarecidos ou até confusos sobre a actualidade. O problema reside, ao mesmo tempo, no excesso e na falta de informação.

É um dos paradoxos mais esquisitos do nosso tempo. Em vez de ajudar a construir conhecimento sólido sobre a actualidade, o aumento do fluxo informativo decorrente da multiplicação de meios de comunicação social parece, antes, contribuir para semear confusão na cabeça das pessoas.

É natural. Quanto maior o barulho, menor a capacidade de ele ser aguentado durante muito tempo. É como quando ouvimos música: se o volume for aumentado substancialmente e a aparelhagem soar distorcida, os tímpanos começam a ceder. Acaba-se por desligar a «hi-fi». O fenómeno está devidamente estudado. Muita informação não é sinónimo de boa informação. Antes pelo contrário.

Este ambiente de sobrelotação é propício à passividade. Se a informação vai ter, aparentemente em quantidade e qualidade, com o cidadão, por que diabo irá ele andar atrás dela? Não chega o telejornal das oito e, nos melhores casos, a leitura do jornal do dia para além das notícias de desporto? Provavelmente, não.

Quem vive em Lisboa ou no Porto pode hoje dar-se à comodidade de encomendar «pizza» ao domicílio. Existem várias empresas no mercado a fornecer este mesmo serviço. Agora, quem quiser ter em casa um bom cherne grelhado à moda de Matosinhos vai, por certo, ter bastante dificuldade em encontrar um restaurante de «tele-peixe» fresco de qualidade na lista telefónica.

Muita notícia que nos é entregue em casa, sobretudo através do pequeno ecrã, assemelha-se a comida rápida. Boa parte não passa de «pizza» feita à pressa para consumir mais depressa ainda. E aqui pode dizer-se, com propriedade, que os olhos também comem, sobretudo imagens espectaculares, engraçadas ou grotescas.

Fica, portanto, a faltar espaço para informação de qualidade. Daquela que não se limita a mostrar, mas sim a explicar e a contextualizar.

Fugir ao actual «fast food» informativo generalizado exige pesquisa, persistência, paciência, cruzamento de fontes diversas, interrogação, questionamento, inconformismo. Como diz Ramonet, informarmo-nos como deve ser dá trabalho.

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