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Arquivo Comunicarte
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Comunicarte
Ser individual
Helder Bastos, 19 de Junho, 1999
Será que as novas tecnologias da comunicação vão dar cabo da nossa capacidade de comunicar? Estaremos nós a produzir «zombies» sociais virtuais, seres incapazes de comunicar directa, humana e socialmente? Dominique Wolton tem o dom muito especial de desconcertar discursos dominantes com interrogações deste género. O sociólogo francês estudou, ao longo de mais de uma década, a influência da televisão no espaço público. No livro «Elogio do Grande Público», explica algumas das suas teses sobre o importante meio de comunicação e rema contra chavões em voga. Por exemplo, defende a televisão generalista contra a onda das televisões temáticas, que hoje vemos multiplicadas em canais por cabo. O receio manifestado pelo autor é o de que, entregues apenas aos seus mundos televisivos especializados, os cidadãos se atomizem cada vez mais, enfraquecendo simultaneamente os vínculos com a sociedade. Na sua perspectiva, a televisão generalista continua a ser um dos mais fortes elementos de ligação social. Wolton vira-se agora para o estudo da Internet. O seu mais recente livro, ainda não disponível em português, intitula-se «Internet et aprés? Une théorie critique des noveaux médias». De novo, volta ao problema da atomização, sobre o qual é possível ler um artigo, intitulado «As falsas promessas da "sociedade Internet" - Sair da comunicação mediatizada», na última edição portuguesa do mensário «Le Monde Diplomatique». Se algumas das facetas das redes de comunicação são altamente desejáveis, argumenta Wolton, «a sociedade das hiperligações também se arrisca a fazer explodir a sociedade real, impondo o individualismo e as relações "à lista" sobre as solidariedades que implicava a vida num mesmo território e a partilha de recursos culturais comuns.» De tanto estarem expostos à comunicação mediatizada, os cidadãos terão, futuramente, dificuldade em sair dela. O problema principal não será o de as pessoas se exprimirem: será o de passarem para uma comunicação «directa, humana e social». Esta é uma questão central a discutir no âmbito do impacto das novas tecnologias na sociedade. O debate, como Dominique Wolton bem refere, é urgente. Quanto mais não seja para «agitar o discurso dominante» sobre a Internet «que lhe é hipocritamente favorável». Ora aqui está um típico teórico do contra a ter em conta.
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