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Comunicarte
A terceira via
Helder Bastos, 12 de Junho, 1999
Politicamente falando, a «terceira via» dos portugueses é a estrada que os leva directos a Albufeira. Depois da mediática campanha europeia, algo anódina e vazia, o sol algarvio vai encarregar-se, tudo o indica, de deixar as urnas de voto em agudo estado de abstinência. Esta foi mais uma campanha eleitoral para esquecer. Repetiram-se os mesmíssimos erros e vícios de estafas anteriores, que parecem ter esse dom mágico de colocar os eleitores perfeitamente nas tintas para o escrutínio. Os candidatos limitaram-se a seguir a cartilha do moderno marketing político. A imagem é tudo. A televisão, o palco. A coreografia, como nos bailados, é obrigatória e profissional. Frases curtas. Incisivas. Daquelas que o jornalista agarra logo como um osso para fazer o título. Ideias, nem por isso. Mas não há problema. Já ninguém vota em ideias, programas ou projectos. Põe a cruz em caras lindas, conhecidas e simpáticas da TV. Aqui e ali, à míngua de jeito para dar chama à inteligência, pôs-se achas na fogueira do insulto. Bárbaros para cá, carreiristas para lá, ovnis por todo o lado e até birras por causa de assentos em debates no pequeno ecrã. Mas aqui não se pode deixar de dar alguma razão a Pacheco Pereira. É, de facto, bastante incómodo discutir, seja onde for, com um derivado de peixeira popular zunindo ao lado. Viu-se, fugazmente, gente com boas ideias pelo meio. Mas que espaço de atenção podem captar no ambiente consolidado do «sound bite» e do «show off»? O destino mais provável de quem quer mostrar ideias e articular argumentos numa moderna campanha eleitoral é levar um tiro da brigada dos comandos «zapping» da televisão. Neste caso, directamente do sofá, é o eleitor a seguir as suas próprias vias de abstenção. A «primeira via» é a que o leva para longe do paleio dos políticos. A «segunda via» será aquela que o dispensa da leitura de jornais e revistas, afinal, meios que lhe permitiriam perceber um pouco melhor o mundo à sua volta. A «terceira via», nos antípodas da desenvolvida por Giddens e apadrinhada por Blair e companhia, é, precisamente, a que lhe permite ir para fora cá dentro, desde que não seja para ir votar. Na Grã-Bretanha, Holanda e Dinamarca, onde já se votou, anteontem, para o Parlamento Europeu, a abstenção bateu recordes. Nada que não estivesse escrito nas estrelas do universo. A propósito, Einstein diria: «Há duas coisas infinitas: o universo e a tolice dos homens».
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