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Geopolítica do ciberespaço

Bastos Hélder Bastos, 29 de Maio, 1999

Em «Geopolítica do Caos» (1), Ignacio Ramonet fala-nos da globalização, da hegemonia dos Estados Unidos, das consequências do neoliberalismo, da ascensão do irracional, das rebeliões que se avizinham, da agonia da cultura. E termina o livro com «A era Internet».

Na parte final da obra, o autor mostra-se preocupado com certos aspectos relacionados com o desenvolvimento do novo meio de comunicação multimédia. A começar pelo receio de que sirva para acentuar «a dominação quase absoluta» dos Estados Unidos sobre este tipo de tecnologias e, consequentemente, para conduzir a uma «situação de vassalização cultural».

A Europa é, neste contexto, a primeira grande vítima. Ramonet receia que, na «guerra multimédia», o Velho Continente venha a sofrer uma derrota tão pesada quanto a que resultou do seu embate com a televisão e o cinema vindos do outro lado do Atlântico. Pelo andar da carruagem, a regra tenderá, também no caso da Internet, a confirmar-se.

Na era do multimédia e do ciberespaço, o acesso dos cidadãos às novas tecnologias é outro dos pontos fundamentais. Neste capítulo, Ramonet não se mostra nada optimista: «As disparidades sociais provocadas pela era da electrónica correm o risco de ser comparáveis às desigualdades resultantes dos imensos investimentos financeiros transnacionais. Quanto às forças económicas que açambarcam as redes, estão em vias de generalizar, ainda pior, reforçar os obstáculos que impedem o seu acesso ao comum dos mortais.»

Mais ainda, o director do «Monde Diplomatique» considera que o que realmente ameaça a Internet é a tentação, cada vez maior, de os «grandes mastodontes da comunicação» se apoderarem, comercialmente, da rede mundial. A era «ciber» toma o lugar da era da televisão. As perspectivas de lucros são enormes. As grandes multinacionais, como a Microsoft, não poupam esforços para a conquista deste gigantesco mercado emergente.

Muitas outras questões, de manifesto interesse público, à volta daquilo a que poderíamos chamar a «geopolítica do ciberespaço» são levantadas na parte final de «Geopolítica do Caos». Uma leitura apressada poderá levar alguns a julgarem demasiado azedos ou catastrofistas os argumentos desenvolvidos sobre a matéria. Talvez sejam. Mas convém ler o livro todo para se perceber porquê.

(1) Editora Vozes, Petrópolis, 1998

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