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Arquivo Comunicarte
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Comunicarte
A grande fuga
Hélder Bastos, 22 de Maio, 1999
«A Realidade Virtual não irá apenas substituir a TV. Comê-la-á viva». A frase, provocadora, é de Arthur C. Clarke. O autor de obras como «2001: Odisseia no Espaço» e de ideias como a do satélite não estará a exagerar. Ele sabe o que os homens dos computadores são capazes de fazer. Uma das críticas genéricas que hoje mais se fazem aos políticos é a de que eles vivem numa espécie de «realidade virtual», argumentando e decidindo desligados da sociedade que era suposto representarem. A Realidade Virtual gerada por computador e a «realidade virtual» dos políticos de gabinete, aos quais se juntaram, recentemente, os comandantes militares da OTAN, convergem num ponto: ambas tentam fazer uma reprodução, necessariamente redutora, do real. Os políticos e os militares, embora profissionais na matéria, não detêm, no entanto, o monopólio da criação de mundos virtuais. Como, recentemente, Maria João Seixas nos deu a ver num brilhante documentário, intitulado «Prazeres Sintéticos», o homem não se cansa de inventar novas maneiras de se despedir do real. A ideia-chave da primeira parte do filme é a seguinte: o ser humano transformou o seu habitat natural, a Terra, num sítio feio e perigoso, em relação ao qual perdeu a capacidade de controlo. Como os estragos são irreversíveis, há que fugir em frente e, de preferência, para bem longe. As ruas são perigosas para passear com a família? Construam-se centros comerciais gigantescos com ruas e praças artificiais. Embora de imitação, são seguras e devidamente climatizadas. As praias são sujas e o mar é traiçoeiro? Levante-se uma, de raiz, no interior de um colossal salão onde tudo, da altura das ondas aos movimentos das crianças, é controlado e vigiado. Mesmo assim o mundo é intragável? Dê-se um salto mental com LSD ou Ecstasy. Já não há pachorra para conversar com familiares, amigos ou vizinhos? Corra-se para a conversação através de computador no ciberespaço. Tudo isto faz parte de experiências do presente. O futuro próximo da criação de novos mundos, controláveis até aos mais ínfimos pormenores, pertence à Realidade Virtual. Quando os computadores estiverem à altura de gerar imagens convincentes da realidade, cada pessoa poderá inventar o seu próprio mundo de imersão total em três dimensões. E, aí sim, a televisão passará definitivamente à história.
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