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Arquivo Comunicarte
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Comunicarte
Preto no branco
H�lder Bastos, 9 de Janeiro, 1999O realizador b�snio Emir Kusturica � um comunicador nato. Domina, magistralmente, a arte de nos comunicar emo��es atrav�s de imagens em movimento no grande ecr�. E que movimento no seu recente �Gato Preto, Gato Branco�! Depois de vermos uma obra de Kusturica, como a que agora se encontra em exibi��o nalgumas salas portuguesas, ficamos com a sensa��o indel�vel de termos explorado novos territ�rios dos sentidos. Talvez se possa comparar a experi�ncia � audi��o de certos discos da chamada musica �tnica ou �World�. Escutar as profundezas da Arg�lia atrav�s da voz �rai� de Cheb Mami, os improvisos m�sticos da eg�pcia Om Kalsoum ou a pr�pria m�sica cigana do leste europeu, serve para nos lavar os t�mpanos do lama�al repetitivo da m�sica moderna de influ�ncia anglo-sax�nica, martelada sem fim pelas r�dios e mostrada, sem grande variedade, pelos tops televisivos. Da mesma maneira, o cinema de Kusturica desentorpece olhos e ouvidos, por vezes de modo politicamente provocat�rio, como acontece em �Underground�. Para quem cresceu (e foi tanta gente por esse mundo fora) com os cl�ssicos enlatados de Hollywood, � imposs�vel n�o apreciar a frescura de solu��es, de planos, de rostos, de cores, de ritmos que ele nos oferece com a sua c�mara. N�o de modo indecifr�vel, tipo Jean-Luc Godard, mas sugestivo, � Kusturica. Por falar em cl�ssicos de Hollywood, � curioso notar que o realizador b�snio n�o renega as influ�ncias da m�quina de fabricar sonhos da Calif�rnia. Ali�s, est�o bem presentes nos seus filmes. Em �Gato Preto, Gato Branco� vemos um velho cigano de dentadura dourada repetir, entusiasmado, di�logos de �Casablanca�. Noutra obra-prima de Kusturica, �Arizona Dream�, um dos actores delicia-nos de riso com imita��es de Cary Grant em �Intriga Internacional�, de Hitchcock. Mas isso eram outros tempos... Numa recente entrevista concedida ao �Expresso�, Kusturica falou do problema da industrializa��o galopante do cinema, em particular do norte-americano. E n�o foi meigo no verbo: �A maioria dos filmes que vejo n�o me toca, o cinema industrial deixou de ser uma quest�o humana, passou a ser uma quest�o de tecnologia, de explos�es e efeitos especiais. N�o quero parecer que tenho uma perspectiva completamente negra, claro que se continuam a fazer bons filmes, mas s�o cada vez menos. Se virmos os anos 30, 40 e 50, hoje n�o h� nada de compar�vel�. Viram o �Con Air - Fortaleza Voadora�, quarta-feira, na RTP1?
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