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Comunicarte
Gestão mediática
Hélder Bastos, 15 de Maio, 1999
A Assembleia da República acaba de apresentar ao país mais um curso superior. Trata-se da licenciatura em Gestão Mediática. Depois do ano 2000, o canudo será obrigatório para todos os aspirantes a um lugar à sombra no Parlamento. A ideia de avançar para estes altos estudos nasceu depois de Sérgio Sousa Pinto ter sido acusado, pelos seus pares, de ter feito uma «péssima gestão mediática» do dossier da união de facto entre homossexuais. O jovem deputado socialista terá tentado jogar à bola com os jornalistas antes de dar umas caneladas nos colegas de bancada. O relatório e contas final, portanto, só poderia ser negativo. Para desgosto da «Opus Gay», o projecto fracturante foi por água abaixo. Deste episódio se concluiu da urgente necessidade política de acabar com os amadorismos na gestão mediática dos projectos apresentados na Assembleia. Todo o deputado deve ser um verdadeiro estratego comunicacional, articulando jogadas partidárias de bastidor com passes de mágica com a comunicação social. O jornalista não é inimigo a abater, é aliado a conquistar e, se possível, a utilizar. Depois do novo curso, nada será como dantes na vida política nacional. A começar pelos rituais de chegada ao topo. «Mãe, já sou gestor mediático!» é a expressão que irá substituir velhos estereótipos do tipo «Pai, já sou primeiro-ministro!» ou «Mãe, olha que rico laranjal de cacos herdei do Marcelo!» Não é para menos. Chegar a político com grau de gestor mediático significa um longo e árduo caminho percorrido abraçando peixeiras, rebentando cordas vocais em comícios, conspirando em sótãos ou caves, esvaziando os cofres do partido em «outdoors» e jantaradas com esses autênticos orientadores de estágio da política em que se transformaram os jornalistas. As subidas ao poder partidário também mudarão, naturalmente, de estilo. Se Cavaco chegou a líder ao volante de um Citroen na estrada da Figueira, os futuros gestores mediáticos, ou não fossem eles gestores, chegarão aos picos de Jaguar ou de Aston Martin. Coisa fina, topo de gama. E, atenção, as leituras de cabeceira também serão alvo de mudança de rumo. Se eles forem apanhados a ler a terceira via de Giddens ou os artigos de Ramonet no «Monde Diplomatique» chumbam.
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