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Orgulho e preconceito

Bastos Hélder Bastos, 8 de Maio, 1999

Dizia o filósofo árabe Averrois: «Mostra-me um homem que não seja escravo do seu orgulho e eu passarei a andar com ele no coração». A frase tem muitos séculos. Transposta para a actualidade, cabe como luva em inúmeras manifestações de orgulho bacoco e tísicas ideias.

Esta semana foi um fartote. De Barrancos para Lisboa, com direito a expansão nacional via TV, lá nos entraram casa adentro, outra vez, argumentos pouco menos que insuportáveis para justificar essa dança macabra que consiste em espetar metal afiado no lombo de animais cornudos para gáudio de turistas. Chamam-lhe, alguns, arte. Não é para admirar. Neste planeta, também se diz que boxe é desporto.

Naturalmente escravo do seu orgulho, o deputado socialista Saleiro teve tiradas que ficam para a história do parlamentarismo. Por exemplo, esta: «Aquela tourada é um elemento de coesão social do barranquenho (...) se calhar sem touradas não havia barranquenhos».

Se bem que este rasgo possa merecer a aprovação de muitos antropólogos, etnólogos, sociólogos e outros «ólogos», o raciocínio é frágil e presta-se a jogos de imaginação matreiros. A título ilustrativo: o fim da escravatura não acabou com os brancos; o fim da Inquisição não deixou os padres no desemprego; o fim da AD não «exterminou» Portas; a emancipação da mulher não acabou com a porrada que muitos maridos lhe continuam, orgulhosamente, a dar. E por aí adiante.

O popular e conhecidíssimo deputado Francisco Peixoto também entrou na arena da semântica para nos deixar pérolas de elevada veia poética: «A tauromaquia é ela a justificação do excesso. É a emoção, o espírito, o sentimento dessas imagens e dessas sensações, dessas coisas da alma que justifica a tauromaquia» (Público 05.05.99).

É com estas e com outras, descobrindo sempre justificações para os excessos, que aquele Parlamento se enterra todos os dias. E depois os pobres deputados dão cabeçadas nas paredes dos Passos Perdidos na tentativa de perceberem, afinal, a razão de serem tão impopulares e mal vistos por boa parte do povo que os elegeu.

No entanto, nem tudo está perdido, ou não tivéssemos nós deputadas «high tech», de grande ponta, como Heloísa Apolónia. A sugestão desta militante de «Os Verdes» é que se utilizem as novas tecnologias de forma a que o touro não seja «ferido, perfurado ou ensanguentado».

Ora bem, façam-se touradas cirúrgicas, fabriquem-se espadas laser como a do «Darth Vader» para os toureiros e encomendem-se uns touros hologramáticos aos estúdios de George Lucas. E ponham-se os aficionados a assistir às corridas em suas casas através da Internet.

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