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Abstinência informativa

Bastos Hélder Bastos, 24 de Abril, 1999

Se as notícias tivessem calorias, a esta altura estaríamos todos a fazer concorrência às medidas do marquês de Fronteira. Consumimos demasiada informação para o estômago que temos. E não há doutor Tallon que nos valha para tratar a obesidade informativa.

Da Alemanha, no entanto, chegam-nos notícias de cidadãos que descobriram a cura ideal para o problema. Não tiveram mais nada: deixaram, pura e simplesmente, de ler jornais, ver televisão ou ouvir rádio, tarefa hercúlea nos dias agitados que passam. Quase dois milhões de alemães cumprem hoje uma rigorosíssima dieta mediática, considerando-se a si próprios «objectores».

Esta minoria diz não querer mais fazer parte da maioria dos seus concidadãos que, diariamente, passa três horas frente ao pequeno ecrã, gasta mais três ouvindo rádio e dedica meia hora à leitura do jornal. Os «objectores» querem viver estas seis horas e meia diárias de outra forma. Contactando com outras pessoas, telefonando aos amigos, indo ao cinema ou ao teatro.

Em vez de se ligarem ao «mundo artificial» criado pela TV, estes alemães muito especiais, que, como nos conta o «Suddeutsche Zeitung», estão muito longe de serem marginais da sociedade e têm, em geral, uma boa situação profissional e financeira, preferem viver a «vida verdadeira».

Um dos argumentos mais interessantes e pertinentes que avançam para o facto de se refugiarem dos «bombardeamentos» mediáticos diários tem a ver com o facto de, em vez de se sentirem bem informados pelos diversos meios de comunicação, acham-se desorientados no meio de tanta notícia. Ou seja, sentem-se vítimas do vírus da sobreinformação.

Curiosamente, tudo isto manifesta-se numa altura em que se multiplicam, por todo lado, novas fontes. Jornais e revistas estalam nos quiosques como pipocas. Canais por cabo concorrem com os coelhos na velocidade de reprodução. E a Internet veio dar a machadada calórica final num século já de si tremendamente gorducho de informação.

O caso dos «objectores» do país da Mercedes e da BMW é sintomático. O cidadão comum começa gradualmente a aperceber-se de que muita informação não é sinónimo de boa formação. De que não basta ter acesso a muitos dados dispersos e a múltiplos pacotes de notícias alinhadas em telejornal para compreender o estranho mundo em que vive.

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