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Comunicarte
Guerra virtual
Hélder Bastos, 17 de Abril, 1999
Aquele conto moral da "stripper", da Judiciária e dos jornalistas é matéria-prima de primeira água para cronicar. Mas mesmo um bom texto sobre o assunto fica despido de sentido face ao elevado calibre de estupidez que o envolve. Passemos, pois, a outras guerras, por sinal bem mais problemáticas e preocupantes para a humanidade. Sob o ponto de vista mediático e informativo, a guerra do Kosovo está a revelar-se, como bem sublinha Carol Guensburg, num artigo publicado na American Journalism Review, um conflito que está a ser seguido de uma forma personalizada por milhões de cidadãos. Com meia dúzia de comandos no teclado do computador, qualquer utilizador da Internet, em qualquer ponto do mundo, pode entrar, virtualmente, no palco da guerra. Na rede, há portas de entrada para tudo e todos. Pode-se discutir, em tempo real, com sérvios ou com albaneses. Há páginas com propaganda do governo de Milosevic e outras onde os albaneses podem tentar encontrar familiares desaparecidos durante o êxodo. Os contestatários da OTAN ou de Clinton podem enviar emails de protesto. É de crer que a caixa de correio electrónico da Casa Branca esteja, por esta altura, a rebentar pelas costuras com mensagens de Belgrado do tipo "fuck you, Adolf Clinton" ou "Servia is not Monica". A guerra do Vietname foi servida, nua e crua, à mesa de jantar dos norte-americanos via TV. A do Golfo também, embora de forma muitíssimo mais controlada pelos militares. Os telespectadores do mundo inteiro não viram quase nada, reféns que eram do pequeno ecrã. O conflito do Kosovo está a tornar claro que é possível dar a volta aos pacotes de informação preparada e, necessariamente, filtrada fornecida pelos media tradicionais. A Internet, embora seja um meio propício para a divulgação de todo o tipo de propaganda e desinformação, é simultaneamente um espaço "self service", no qual cada um pode escolher as fontes de informação que quiser. Mesmo as interditas ou censuradas noutras paragens. A construção do sentido (?) da guerra passa, portanto, de passivo a activo, personalizado, interactivo. Deixa de ser nivelado pela exposição a um meio de massas homogéneo e unidireccional, como é o caso da televisão. As guerras nunca mais serão as mesmas.
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