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Comunicarte

Do c�u chovem computadores

Bastos Helder Bastos, 29 de Julho, 1995

H� alguns anos, um filme chamado "Os deuses devem estar loucos" fez um tremendo sucesso. Contava a hist�ria de uma garrafa de Coca-Cola que um dia caiu dos c�us aos trambolh�es no meio do territ�rio de uma pacata tribo africana. A pequena e inofensiva garrafa veio acabar com o sossego dos ind�genas e cedo se tornou objecto de maldi��o.

Hoje, nos pa�ses mais desenvolvidos, uma boa parte das pessoas tamb�m v� cair do c�u, a grande velocidade de multiplica��o, uns estranhos e complicados objectos. Chamam-lhes computadores. E atr�s deles v�m placas e colunas de som, c�maras de v�deo, jogos digitais, discos compactos, faxes, modems e telefones. Toda uma pan�plia conjugada a que os especialistas deram o nome de "multimedia".

A ansiedade que esta Coca-Cola dos tempos modernos desperta em muita gente n�o anda longe da provocada pela garrafinha que nos "Deuses devem estar loucos" caiu desamparada na savana de um recanto de �frica.

Os sinais de que h� cidad�os que pensam que os deuses devem estar mesmo loucos come�am a verificar-se um pouco por todo o lado. Um estudo feito na Alemanha, e divulgado pelo "P�blico" esta semana, d� conta de que mais de metade dos alem�es se sentem inseguros perante a explos�o de informa��es e de imagens resultantes dos avan�os na �rea dos "media".

H� muitos mais canais de televis�o para ver, os lares inundam-se de PC e Macintosh, a par de leitores de CD-ROM e discos interactivos. Principalmente os jovens passam cada vez mais tempo mergulhados em ambientes "multimedia", para j� n�o falar dos "cibernautas", ou seja, aqueles que est�o ligados � rede mundial de computadores Internet.

O estudo alem�o revela que h� camadas da popula��o muito preocupadas com a avalanche comunicacional. Quase um quinto dos alem�es sente-se esmagado pela "invas�o medi�tica", enquanto muitos outros cidad�os se confessam impotentes para acompanharem o passo desta evolu��o. Um dado curioso: s�o as fam�lias com crian�as que mais receiam os efeitos "multimedia" nos seus lares.

� uma preocupa��o compreens�vel. O ambiente "multimedia" � altamente estimulante e atractivo, por vezes viciante, o que est� longe de acontecer, por exemplo, com o ambiente escolar. Os pais queixam-se do enfraquecimento do di�logo com os filhos, do aumento do isolamento, da cada vez maior falta de tempo para conversar.

Os novos "media" come�am a ser comparados a ladr�es de tempo e de humanismo. Observa��es deste g�nero t�m-se ouvido abundantemente em rela��o � televis�o. No entanto, uma das ideias mais cred�veis acerca deste assunto assenta na conclus�o de que n�o basta fazer da TV o bode expiat�rio de todos os males.

� preciso tamb�m procurar explica��es no papel que cumprem, ou n�o, a fam�lia e a escola. Ambas ter�o de fazer um esfor�o para se adaptarem, rapidamente, �s transforma��es provocadas pelo aumento da diversidade medi�tica, sob pena de verem aumentar o fosso entre pais e filhos, professores e alunos.

Nicholas Negroponte, director do laborat�rio de "media" do Instituto de Tecnologia do Massachusetts, p�e a quest�o da seguinte maneira: "Uma pessoa que decida ignorar a vida digital n�o pode ser chamada de moderna. Negar o computador � como recusar o sexo antes de experiment�-lo".

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