|
|
Comunicarte
Televis�o e democracia
Helder Bastos, 22 de Julho, 1995
Este � um livrinho para os directores dos canais portugueses lerem e chorarem por mais. Intitula-se Televis�o: um perigo para a democracia. Foi lan�ado em Portugal no m�s passado e nele se podem ler dois textos principais. Um � da autoria de Karl Popper, fil�sofo falecido no ano passado e que deixou escritas diversas obras, entre as quais A sociedade aberta e os seus inimigos. Outro � do psic�logo norte-americano John Condry, que dirigiu um centro de pesquisas sobre os efeitos da televis�o e escreveu livros sobre o assunto. Popper e Condry n�o t�m em boa conta a televis�o dos nossos dias. Bem pelo contr�rio. Na opini�o do fil�sofo vienense, a televis�o instila a viol�ncia no seio da sociedade e � mesmo compar�vel � guerra. Por ser uma relativa novidade e por as institui��es pol�ticas se prestarem � in�rcia, defende Popper, a televis�o tornou-se um poder sem controlo. E qualquer poder incontrolado contradiz os princ�pios da democracia. "A democracia consiste em submeter o poder pol�tico a um controlo. � essa a sua caracter�stica essencial. Numa democracia n�o deveria existir nenhum poder pol�tico incontrolado. Ora, a televis�o tornou-se hoje em dia um poder colossal" (1). Popper, citado abundantemente por pol�ticos de v�rios quadrantes, dramatiza ainda mais este ponto ao afirmar que "nenhuma democracia pode sobreviver se n�o se puser cobro a esta omnipot�ncia". Do seu ponto de vista, n�o pode haver democracia se a TV n�o for submetida a um controlo, que, no entanto, n�o deve ser confundido com censura. O fil�sofo refere, em particular, os casos da ex-Jugosl�via e da R�ssia, onde o poder do pequeno ecr� � usado e abusado. Lembra que, no tempo de Hitler, ainda n�o existia a televis�o. Mas, "com ela, um novo Hitler disporia de um poder sem limites". O papel da TV nas democracias � apenas uma parte dos problemas abordados no livro. A influ�ncia deste meio de comunica��o de massas junto das crian�as, nomeadamente com a difus�o da viol�ncia, ocupa um espa�o privilegiado. Popper corrobora as ideias de John Condry nesta mat�ria. Este psic�logo americano parte do princ�pio de que as crian�as, quando assistem a cenas de viol�ncia na TV, t�m muita dificuldade de distinguir a realidade da fic��o. S�o, pois, mais vulner�veis que os adultos. Os mais velhos, muitas vezes, n�o t�m tempo ou aptid�es para acompanhar as crian�as, ajudando-as a fazer uma triagem daquilo que v�em no ecr�. Condry sublinha que sem o apoio da fam�lia, uma grande parte do que � ensinado aos mi�dos na escola acaba por se perder. "Se a escola fosse mais eficaz, o poder da televis�o seria menor". E este poder ser� tanto maior quanto mais tempo se estiver sentado em frente ao ecr�. Uma crian�a americana, por exemplo, v�, em m�dia, quatro ou cinco horas de televis�o por dia durante a semana e sete ou oito ao fim-de-semana. John Condry conclui que as crian�as americanas de hoje est�o perturbadas e que isso se deve em parte a passarem demasiado tempo em frente da televis�o. Esta rouba-lhes "um tempo precioso" que necessitariam para aprenderem a conhecer o mundo em que vivem. Se isto � grave, acrescenta, h� pior: a televis�o mente. "As crian�as v�em na televis�o uma fonte fi�vel de informa��es sobre o mundo. N�o � esse o caso, mas como podem elas sab�-lo?" O tipo de argumentos de Popper e de Condry parecer�o radicais aos olhos de muita gente, nomeadamente, estudiosos dos "media" e profissionais de televis�o. Mas n�o caem em saco roto. O Senado norte-americano, com o apoio do presidente Bill Clinton, acaba de tomar medidas: os fabricantes de televisores passam a ter de incluir nos receptores um circuito electr�nico que permite aos pais bloquearem programas que considerem violentos ou impr�prios para os seus filhos. (1) Televis�o: um perigo para a democracia, Karl Popper e John Condry, Gradiva, Lisboa, 1995.
|