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Comunicarte
Saltos altos
Helder Bastos, 24 de Junho, 1995
Jornalistas saltam para a pol�tica. Pol�ticos saltam para as redac��es. Assessores regressam ao jornalismo. Pol�ticos fazem entrevistas. Jornalistas candidatam-se a deputados. Interessante, n�o �? Com mais intensidade que o habitual, tem-se visto de tudo. E a proximidade das elei��es parece revelar-se um tremendo detonador de talentos adormecidos. Um seman�rio publicou, h� uma semana, um artigo que d� conta do alegre vai e vem de jornalistas entre redac��es e corredores ministeriais e da amargura que parece apoderar-se destes profissionais em �poca pr�-eleitoral. Agora que mais uma temporada assessoral se aproxima do fim, eis que alguns come�am a fazer contas � vida. Voltar � redac��o? N�o voltar � redac��o? Depende da elei��o? Para os jornalistas-assessores de Imprensa, o regresso �s bases implica uma s�rie de mudan�as. Uma delas, e talvez a mais custosa, � o sal�rio. Costuma ser mais magro nas redac��es do que nos gabinetes. Depois, t�m, de novo, que despir a pele de tratadores de imagem e amaciadores de jornalistas e vestir a de... jornalista. Apesar de se ter, � for�a de tanto uso e abuso, banalizado, este jogo de trampolim n�o � exclusivo de Portugal. Em todo o lado parece haver sempre um espa�o confort�vel para acolher quem vai dar uma voltinha pelos tapetes da pol�tica. Desta forma, julgam muitos empregadores, os jornalistas-assessores ficam a conhecer as manhas da pol�tica por dentro. Esquecem-se de que, muitas vezes, acabam amanhados por elas. Mas isso � secund�rio, face �s exig�ncias da sagrada concorr�ncia e � import�ncia de se ter uma cara na capa da TV Guia. Como o jornalismo pol�tico sobrevaloriza, hoje, intrigas palacianas e zangas de comadres nos partidos e gabinetes, os jornalistas p�s-graduados em assessoria pol�tica ficam, aparentemente, em vantagem. No meio de tudo isto, um ritual, ao mesmo tempo impune e rid�culo, leva o jornalista, isto �, alguns jornalistas, a entregarem a sua carteira profissional quando v�o fazer uma temporada de manicura pol�tica. � uma esp�cie de descargo de consci�ncia. A carteira ser-lhe-� devolvida quando a "facada" no jornalismo acabar. Imagine-se um bombeiro a seguir o exemplo. Por que n�o ir uns tempos atear fogos? Ficaria a conhecer melhor as t�cnicas do incendi�rio. Depois, poderia regressar, com outro saber, ao combate �s chamas. O mais perturbante nesta hist�ria � que ningu�m parece importar-se com a anarquia instalada. Opta-se, quase sempre, pelo sil�ncio c�mplice ou pela m�-l�ngua de taberna. Preocupante � n�o apenas saber que deontologia � letra morta para muita gente que faz das redac��es portas-girat�rias, mas tamb�m verificar que o jornalismo n�o sabe responder, na pr�tica, a estas situa��es. Lembrar que existem c�digos deontol�gicos, e que estes consideram incompat�vel o exerc�cio do jornalismo com o de assessorias passou a ser encarado como uma atitude intrusa, moralista e passadista. Os tempos mudaram. Definitivamente, o que est� a dar � ser, ao mesmo tempo, jornalista, assessor do sr. ministro, fazer gala disso e passear de telem�vel.
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