O futuro do jornalismo está na pesca

Hélder Bastos, JN, 8 de Março, 1997
No Verão do ano passado, o cientista norte-americano Walter Bender foi ao Brasil dar uma aula de jornalismo aplicado. Depois de cumprimentar os alunos, deu início à sua palestra com uma frase aparentemente desconcertante: «O futuro do jornalismo está na pesca».

Bender é considerado um dos maiores especialistas na área do desenvolvimento de novos meios de comunicação. Dirige a Divisão de Pesquisa Científica do famoso Laboratório de Media do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT) e é responsável por um programa ali desenvolvido, denominado «News in the Future» (Notícias no Futuro).

O tema da aula era mais que oportuno. Em meados do ano passado, quase todos os dias novas publicações, dos mais variados países, inauguravam as suas páginas na Internet. Actualmente, contam-se perto de 1600 jornais electrónicos, entre os quais vários portugueses, na maior rede de redes de computadores do mundo.

Bender falou precisamente sobre jornais montados por computador e distribuídos via Internet. Na sua perspectiva, cada jornal deve ser personalizado de forma a apresentar o conteúdo de acordo com os interesses e hábitos de leitura de cada utilizador. De certa forma, esta ideia vai ao encontro do conhecido projecto «Daily Me» (O Meu Diário), divulgado por outro guru do MIT, Nicholas Negroponte, autor de um livro já traduzido para português intitulado «Ser Digital».

A personalização da leitura será tanto mais necessária quanto se sabe que na Internet a coisa mais fácil de acontecer é sermos pura e simplesmente submergidos por desabamentos de informação. Portanto, um dos maiores desafios dos jornais e jornalistas do futuro será tornar o oceano de informações armazenadas digitalmente em algo interessante e pertinente para os leitores. O jornalista deverá, por um lado, saber «pescar» o peixe certo e, por outro, saber «cozinhá-lo» de forma a criar apetite ao leitor. «O verdadeiro desafio é levar até ao utilizador um conteúdo que seja não só atractivo, do ponto de vista lúdico ou visual, mas que também seja útil. Nesta linha, veremos que a comunidade, quer seja um grupo de interesses ou um local geográfico, ganha cada vez maior importância."

Por isso, o primeiro passo a dar pelas empresas jornalísticas, segundo Bender, é obter recursos para colocar «a frota» no mar. Isto é, os jornais devem conhecer bem a audiência e utilizar meios atractivos, de forma a captarem publicidade. A audiência na Internet, note-se, tem sofrido alterações. Depois de uma primeira onda de utilizadores, em geral pessoas com alto grau de instrução e interesses bem definidos, assiste-se ao aparecimento de um novo grupo, mais disperso quanto à informação que procura.

O segundo passo será «estender as redes» através de programas informáticos capazes de procurar não só notícias mas também pessoas com interesses comuns. Será o computador a fazer sozinho esta tarefa minuciosa e devoradora de tempo. O terceiro passo consiste em «diminuir a malha da rede», contextualizando a informação de acordo com o perfil de cada utilizador da Internet. O computador aprende coisas sobre a pessoa e, a partir daí, passa a ser uma espécie de editor pessoal.

A finalizar a aula, Bender defendeu que as principais características do jornal do futuro devem ser facilitar a ligação com os leitores, construir uma comunidade e garantir a continuidade no fornecimento de informações úteis para esses grupos. A notícia em si, referiu ainda, vai ser algo sem muito valor. "A riqueza estará em criar e entender o contexto no qual ela pode ser útil." 1

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