Era bom que 1998 fosse menos excessivo em termos de "futeborreia" mediática. Serve este neologismo instantâneo para retratar a soltura futebolística a que os meios de comunicação social, com destaque para as televisões, nos têm submetido todos os dias.
O país real parece ter esquecido de vez o fado e Fátima. Agora é só mesmo bola na frente. Os estádios foram colocados ao serviço das moscas e dos atiradores de garrafas de fim-de-semana. Em contrapartida, nos estúdios de televisão pululam desde pacatos massagistas a ubíquos dirigentes, todos alegremente chuteirando o português e o bom senso em horário nobre. Em pungentes directos. Em conferências de imprensa sobre a delicada problemática das facadas na Liga. Ou das crueldades resultantes da teimosia do famoso Bosman.
Infelizmente, no tocante à "futeborreia", o ano já arrancou com o pé esquerdo. Os casos do vai-não-vai de João Pinto para o Corunha e das cotoveladas assim a modos que cheias de desportivismo no Porto-Benfica foram transformados em verdadeiras orgias informacionais. Como se isso não bastasse, assistimos logo depois ao degradante espectáculo dos canais de TV acusando-se mutuamente de encobrimento de imagens. Qual moeda única, qual regionalização, qual educação, qual aborto e ideias sinistras do PP sobre esta matéria!
Os "media" vivem diariamente o seu drama. Para sobreviverem, têm de seguir de perto os apetites vorazes das massas. Fazendo-o cegamente acabam por se repetir até à exaustão. Modalidades como o atletismo, o voleibol, a patinagem, a ginástica, o remo, o ténis, a natação, entre muitíssimas outras, quase passaram à clandestinidade nos serviços informativos dos canais portugueses ditos generalistas. Era bom que as coisas mudassem.
Mais votos para 1998: que a Portugal Telecom deixe definitivamente de dar tanga aos seus clientes e que as contas da Expo-98 sejam todas muito bem explicadas aos portugueses. Mais vale o choque da verdade que o conforto da ignorância. Seria óptimo as salas de cinema passarem mais fitas europeias, asiáticas, africanas, sul-americanas. Os ingleses chamam a isto "wishfull thinking". Que é como quem diz: vai sonhando. O mercado, essa poderosa sociedade anónima de poder ilimitado, tem também aqui a última palavra.
Na TV Cabo, era bom que à abundância de canais começasse a corresponder uma efectiva diversidade. Se espremermos bem os trinta e tal canais disponíveis, facilmente chegaremos à conclusão de que há demasiada redundância temática. O aparecimento de canais regionais difundidos através deste meio seria sem dúvida boa notícia. Quanto mais não seja para contrariar o excessivo centralismo televisivo, e chato, diga-se de passagem, que nos proporcionam sobretudo os canais privados SIC e TVI.
Ligar à Internet através da TV Cabo deveria ser outra prioridade. As secas em frente ao ecrã do computador tornar-se-iam muito menos frequentes dado o cabo permitir uma muito maior velocidade de transmissão dos dados.
O aumento da produção de CD-ROM com conteúdos nacionais, a par do abaixamento do preço destes pequenos discos compactos multimedia, seria de louvar. Além disso, a introdução generalizada deste suporte nas salas de aula deveria igualmente ser uma meta a atingir. O mesmo se aplica à Internet, através do aprofundamento do bom trabalho desenvolvido em 1997, com a instalação de computadores ligados à rede mundial nas escolas. As quatro paredes da sala de aula precisam de ser derrubadas de vez. Há aí um planeta inteiro a explorar.
Este ano, era boa ideia os jornais levarem mais a sério o seu papel insubstituível na interpretação dos factos e no enquadramento da actualidade. Há muito trabalho a fazer na trocagem por miúdos de assuntos muito importantes para a vida dos cidadãos. Regionalização, aborto e moeda única, por exemplo. Para isso, não bastará andar a reboque dos monocórdicos telejornais. Muito menos atirar à cara dos leitores o paleio esquizóide da tecnocracia.