É tudo muito estúpido, demasiadamente estúpido, mas é mesmo assim. Ricos cada vez mais ricos, pobres cada vez mais pobres. As três pessoas mais ricas do mundo têm o equivalente ao Produto Interno Bruto combinado dos 48 países mais pobres. Encontramo-nos no auge das «sociedades de mercado», no pico da «era dos extremos» ou, como prefere Arno Gruen, em plena «loucura da normalidade».
Sobre a forma como se morre à fome em dezenas de países, se dorme ao relento, se vende o corpo para sobreviver, se esfumam vidas por um punhado de dólares, já todos temos imagens suficientes, banalizadas pela exaustão no tempo. No outro extremo, vemos emergir o tal «estilo de vida Web» apregoado por Gates.
Talvez este estilo, para já ao alcance de apenas uma elite de terráqueos, possa ser resumido numa frase que ele escreveu no seu famoso livro «Rumo ao Futuro»: «Chegará um dia, que não está muito distante, em que será possível conduzir um negócio, estudar, explorar o mundo e as diversas culturas, chamar qualquer divertimento, fazer amigos, participar em mercados vizinhos e mostrar familiares distantes sem sair da sua secretária ou sofá. (...) Será o seu passaporte para uma nova e mediática forma de vida».
As tecnologias, em particular a Internet, evoluíram de tal forma que muitas destas coisas já podem ser feitas através da rede, onde a tal Web se destaca. Milhões de pessoas fazem compras, jogam, conversam, estudam, namoram e negoceiam ao computador ligado à teia mundial. O pacato xingu da Amazónia, que não está nem aí para um simples telefone, ficaria banzado vendo pessoas civilizadas rindo para o ecrã daquela máquina muda com teclado, rato de plástico e janelinha colorida.
Gates, à semelhança de outros gurus da era digital, acredita que o fosso entre os que têm acesso às novas tecnologias da comunicação e os excluídos deste admirável mundo novo irá diminuir com o passar do tempo. No entanto, basta olhar para o planeta como um todo e atentar bem na distribuição da riqueza e do conhecimento para perder ilusões quanto a milagres nesta matéria. Não estaremos antes a caminhar para info-ricos cada vez mais info-ricos e info-pobres cada vez mais info-pobres?