Vamos lá ver se percebemos bem: Marcelo Rebelo de Sousa quer privatizar a RTP? Depois de Cavaco Silva ter dado uma real machadada na televisão pública, acabando com a taxa, só faltava mesmo esta tirada genial para a atirar de vez ao caixote do lixo audiovisual.
Soa algo mirabolante a ideia do líder do PSD. Não lembra ao diabo, nesta altura do campeonato, indicar à RTP o mesmo caminho das privadas e comerciais SIC e TVI. A saber, subjugação total aos cifrões dos anunciantes, indigestão de anúncios, competição simultaneamente desregrada e desenfreada, paranóia com o naco das audiências, nivelamento dos programas por baixo a par do abastardamento e espectacularização da informação, elevação do popularucho ao título de horário nobre, balda total no cumprimento dos horários. Enfim, o dinheiro faz rolar o mundo e até a Comissão Europeia já bateu levemente no ombro dos canais portugueses para lhes lembrar que estão a abusar da paciência dos telespectadores com tanta poluição publicitária no ar.
É compreensível. De tão atarefado que anda na preparação das autárquicas e no combate à pirotecnia ateada por Cavaco, Marcelo pouco tempo deve ter para se entregar ao "zapping" de canal em canal. Se o fizesse, era quase certo e sabido que a luzinha da privatização acesa na sua jurídica cabeça fundiria num ápice.
Privatizar a RTP agravaria ainda mais o problema da falta de escolha dos cidadãos no tocante à oferta televisiva nacional. Poder-se-á argumentar que programas não faltam. Noticiários também não. O problema, no entanto, não reside na abundância mas sim na diversidade. Ou melhor, na falta dela. Não há uma efectiva diversidade nas nossas televisões comerciais, particularmente nas horas de maior audiência. O mesmo se passa com a música pimba. Os pimbas não param de se multiplicar. Em concertos ao vivo, discos, programas de TV e "shows" de rádio. No entanto, tocam e cantam todos a mesma e repetitiva coisa.
Se a RTP, em vez de se distanciar do modelo comercial se aproximasse dele veríamos ainda mais reduzidas as nossas opções enquanto telespectadores. Seria ver a RTP2 mandar programas como o "Acontece" ou o "Falatório" para um qualquer limbo fora de horas. Ou condenar à clandestinidade as peças de teatro, a ópera, o jazz, o cinema europeu e oriental, as artes plásticas e outras coisas consideradas elitistas e chatas pelos mais distraídos. RTP África? Isso só dá prejuízo. RTP Internacional? Os emigrantes não põem cá anúncios. Extermine-se.
Segundo a lógica do episcopado da televisão comercial, o que não é visto por muita gente não vende anúncios. Logo, não presta. Imediatamente sai do ar. Só faltava agora descobrirmos que Marcelo cultiva a secreta ambição de ver a RTP transformada numa máquina de venda de presidentes e de sabonetes.
Uma televisão pública, sustentada em parte pelo dinheiro dos contribuintes, que incluem, naturalmente, pessoas com "gostos minoritários", deve garantir a diversidade e não conformar-se com a mediocridade. Deve criar condições para evitar o jogo menor da contra-programação, modalidade de todo incompatível com o conceito de serviço público e de respeitabilidade a ele inerente. Deve distanciar-se o máximo possível do poder político de modo a credibilizar-se perante os cidadãos. Tristemente, continuamos a assistir à teatral ladaínha de acusações de manipulação entre quem está e quem foi apeado do pedestal do poder. Ora, nada nos garante que a privatização da RTP seja sinónimo de beatificação política da mesma.
O professor Marcelo bem poderia meter-se num avião e ir até ao Brasil fazer um visita informal à privada e comercial Globo. Para observar como o empresário Roberto Marinho se diverte a fazer dançar políticos com aspirações de poder.