Uma vida inteira

Hélder Bastos, JN, 7 de Novembro, 1998

Aquela frase mortal de Gilder «a televisão é uma ferramenta de tiranos» passou a filme. «A vida em directo» está prestes a estrear. Uma metáfora certeira, poderosa e perturbante das nossas sociedades de excesso mediático. Vale a pena ir ver.

Antes de ir, no entanto, o leitor pode fazer um exercício bastante simples: passar em revista algumas extravagâncias do panorama televisivo actual, banalizadas pelo tempo em nobres horários. Desta forma, o filme de Peter Weir parecer-lhe-á um pouco menos inverosímil.

Relembremos. Actualmente, quase a dobrarmos a espinha ao milénio, temos programas de TV com pessoas que, por tuta e meia, se desnudam perante as câmaras. Mulheres que se propõem dar à luz em directo. Casais que contam vidas íntimas a troco de máquinas de lavar. Gente que troca o divã do psiquiatra pelo colo do apresentador. Que faz figura de urso por cem contos e se baba com os aplausos.

Por detrás destas pérolas do pequeno ecrã estão os guerreiros das audiências. São almas astutas, predadoras, hiperactivas, geniais. Invariavelmente, deixam grossa fatia dos escrúpulos no parque de estacionamento.

Perante isto, «A vida em directo» («The Truman Show») não faz mais que esticar ao máximo os elásticos da nossa imaginação. Weir conta-nos, com imagens enriquecidas pela ambiência sonora de Philip Glass, a estória de uma grande empresa que comprou a vida de Truman (Jim Carrey, brilhantíssimo no papel) ainda ele estava na barriga da mãe. O puto cresceu numa cidade que mais não era que um gigantesco estúdio de cinema, onde tudo é cenário e todos são actores, excepto a estrela principal: Truman, o último a saber.

O maestro deste monumental circo televisivo, transmitido em directo, 24 horas por dia, é figura sinistra. Misto de criador, realizador e pai, Christof mostra ao mundo inteiro toda a vida de Truman, através de cinco mil câmaras instaladas nos sítios mais incríveis da «cidade» de Seahaven. Assustador.

Christof, interpretado por um actor claramente amadurecido, Ed Harris, simboliza o perfeito guerreiro das audiências. Aquele para quem as regulações éticas ou morais foram feitas apenas para os reles mortais. Está fora do mundo e acima dele.

Com «A vida em directo», Weir fornece-nos múltiplas pistas para reflexão e discussão. Uma delas pode ser esta: se as pessoas estão cada vez mais à venda, por que não comprar-lhes a vida inteira?

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