Estamos a fazer jornalismo
e não estúpidos truques tecnológicos

Hélder Bastos, JN, 15 de Março, 1997
Alguns jornais estão a fazer experiências muito interessantes na Internet. É o caso do diário norte-americano "Chicago Tribune". Os seus jornalistas digitais fazem de tudo. Uma reportagem para eles é uma espécie de aventura todo-o-terreno: escrevem texto, tiram fotos, filmam com câmaras de vídeo e criam páginas electrónicas.

São sete os repórteres a trabalhar exclusivamente na edição do "Tribune" na Internet, juntamente com outros 20 jornalistas. Esta equipa conseguiu criar um produto jornalístico electrónico bastante imaginativo e aclamado pelos especialistas do meio.

De certa forma, o que aqueles profissionais estão a fazer é uma antecipação das prováveis características dos futuros profissionais dos media. Enquanto hoje o jornalista trabalha sobretudo com texto, amanhã poderá trabalhar conjugadamente com texto, som e imagem para contar as suas estórias, principalmente ao público utilizador da Internet. Isso vai decerto obrigar profissionais e empresas a reformularem muitas das concepções ligadas ao mundo do jornalismo.

Quando o "Tribune" decidiu lançar-se de cabeça no ciberespaço, fazendo apostas que a maior parte das empresas jornalísticas tem medo de fazer, os seus responsáveis quiseram deixar claro que, mais importante do que a inovação tecnológica, era a continuidade dos princípios éticos e deontológicos.

Assim, a nova equipa digital interiorizou alguns mandamentos. O primeiro: todas as regras regulares do jornalismo aplicam-se à edição e reportagem electrónicas. Os factos têm de ser confirmados e reconfirmados, tal como acontece quando se faz uma notícia para o jornal de papel. A necessidade de confirmação dos dados obtidos na Internet torna-se mais necessária ainda, dada a colossal profusão de fontes.

Este primeiro aviso à navegação é importante, pois há quem pense que quando um jornalista começa a trabalhar na Internet entra noutro mundo e deixa de ser jornalista, não tendo de respeitar os mesmos princípios dos seus colegas analógicos.

Outra directriz dada à equipa digital do "Tribune" apela fundamentalmente à mudança de mentalidade. Os jornalistas têm agora de pensar na especificidade do meio para o qual estão a trabalhar. Por isso, deverão juntar ao texto com que narram determinado acontecimento gráficos estáticos ou animados, bem como excertos de vídeo e de audio. É o que se poderá chamar o verdadeiro jornalismo multimedia na Internet.

A regra principal, no entanto, é de uma simplicidade e eficácia desconcertantes, tal como a coloca a consultora do projecto, Leah Gentry: "O que estamos a fazer é jornalismo, não estúpidos truques tecnológicos."

A edição do "Chicago Tribune" na Internet, cujo endereço é http://www.chicago.tribune.com/, arrancou em Março do ano passado e contém a maior parte do conteúdo da versão em papel, como notícias, anúncios classificados, meteorologia, bolsa e programação televisiva. No entanto, oferece muito para além disso.

O cibernauta pode ler artigos de fundo e documentos especiais sobre tecnologia, jogar jogos, aceder a grupos de discussão e, por exemplo, consultar tudo aquilo que quer saber sobre uma das equipas de basquetebol mais conhecidas da NBA e do mundo, os famosos "Chicago Bulls".

Para os possuidores de um computador multimedia, o "Tribune" electrónico permite a audição de entrevistas e o visionamento de imagens, provenientes de um canal de televisão, propriedade da empresa, que emite 24 horas por dia.

Durante a convenção dos democratas, realizada no ano passado, em Chicago, o "Tribune" electrónico registou quase 100 mil utilizadores por dia.

Apesar de tudo isto, o jornalismo digital, no "Chicago Tribune" bem como nos outros jornais, está ainda na sua infância. Quando crescer, poderemos passar a ver jornalistas a entrar e a sair das redacções carregados com caneta, computador portátil, gravador de bolso, máquina fotográfica e câmara de filmar ao ombro.

1

Hosted by www.Geocities.ws