As entrevistas já não são o que eram na televisão. Dantes, as Guedes e Marante ganhavam fama pelos roncos que davam em exclusivo aos entrevistados. Eles passavam a benzer-se antes de entrarem nos estúdios, onde eram submetidos a verdadeiras sessões de tortura oral. Agora, com a moda da interactividade a pegar, os jornalistas têm cada vez mais de dividir o seu brilho com os telespectadores.
Há dias, Frederick Forsyth, foi entrevistado pela cadeia norte-americana de televisão CNN. O escritor estava num estúdio em Londres. O entrevistador, do outro lado do Atlântico.
Podia ter sido uma conversa como outra qualquer, mas não foi. Reteve a atenção porque, desde logo, as perguntas feitas ao autor de «Chacal» por telespectadores espalhados pelo planeta eram originais, algo inesperadas e pitorescas.
O telespectador de um país africano perguntou candidamente a Forsyth a razão de nenhum dos heróis das suas histórias ser de raça negra. A resposta, dada com ar analítico e circunspecto, foi qualquer coisa como: «Olhe, nunca tinha pensado nisso, mas não foi de propósito». Se o falatório tivesse sido conduzido exclusivamente pelo pivot da CNN, uma questão tão simples como esta teria sido colocada?
Depois, outro aspecto interessante: as perguntas eram feitas através de uma variedade enorme de canais. Suíços, alemães, liberianos e espanhóis utilizaram o velhinho telefone para chegarem aos ouvidos de Forsyth.
Outros preferiram utilizar o lento fax. Os mais na crista da onda preferiram o correio electrónico, lido em voz alta pelo entrevistador. Agora, as restantes perguntas eram geradas na edição electrónica da CNN na Internet. Aí, um grupo de pessoas de vários países discutiam em tempo real ao mesmo tempo que a entrevista com Forsyth decorria. De vez em quando, o entrevistador olhava para o ecrã do computador e sacava a pergunta de um dos intervenientes, colocando-a de seguida ao escritor, entre pausas frequentes para a publicidade.
A certa altura, o entrevistador da CNN fazia lembrar aqueles artistas de circo que começam por fazer malabarismo com um objecto, depois outro, mais outro e dali a nada estão a fazer girar no ar meia dúzia de bolas sem as deixar cair ao chão. Nas entrevistas, como no circo, a vida está cada vez mais complicada.