Tartes contra o futuro

Hélder Bastos, JN, 7 de Fevereiro, 1998

Numa das ruas movimentadas da cidade do Porto, ali para os lados da Constituição, vê-se pintado numa parede a cabeça de um homem. Em vez de olhos, o boneco soprado para o cimento com tinta spray tem cifrões. A mensagem dos talentosos pintores da Invicta parece ser muito simples e directa à cabeça: as pessoas só vêem dinheiro à frente.

De forma substancialmente mais sofisticada e calórica, um grupo de intelectuais europeus tentou, há dias, transmitir idêntica mensagem ao homem mais rico do mundo. Apanharam Bill Gates em Bruxelas e trataram de lhe fazer pontaria aos óculos com tartes atestadas de chantilly. O presidente da Microsoft, besuntado com aquela pasta branca e doce, até ganhou um ar mais humano, quase terreno, nas fotografias publicadas nos jornais.

O episódio em si é inofensivo. Mas não deixa de ter uma carga simbólica enorme. Há muita gente por esse planeta fora que se deve ter identificado plenamente com esta tartada. Não apenas pelo facto de Gates representar o poder do dinheiro ou ser o modelo do mega-empresário de sucesso, mas também por dar corpo a um novo império à escala mundial, o império da inteligência dos computadores.

Quem tem medo de Bill Gates? Para começar, os empresários que mais directamente competem com ele. Sabem bem que é insaciável e nunca se senta à sombra da bananeira depois dos sucessos obtidos. A seguir, os governos de alguns países. Sentem-se culturalmente colonizados pelo "Windows 95", pelo "Internet Explorer", pelas "Cinemania". Depois, os utilizadores de computadores porventura mais esclarecidos, a quem não agrada a ideia de a esmagadora maioria dos PC espalhados por cinco continentes falarem a língua da Microsoft.

Entre as comunidades virtuais espalhadas pela Internet, Gates também não tem propriamente a popularidade da princesa Diana. Os intelectuais, por seu lado, olham para o rei do «software» com desconfiança.

Bill Gates não perde o sono por causa de tanta oposição ao seu monopólio. Enquanto todos berram contra si, vai acenando e construindo a sua teia planetária. É mais tarte, menos tarte. Está demasiado entretido a planear o próximo século, guiando-se por uma máxima simples: não esperem pelo futuro, construam-no.

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