O tal canal

Hélder Bastos, JN, 1 de Março, 1997
«Se você pensa que precisa de ter acesso a boas estradas, boas escolas, boa comida, boas casas e boas roupas, agora acrescente bom acesso aos computadores na lista de necessidades, ou prepare-se para ser um marginalizado na era da informação».
Harry Marsh

Devagarinho, sem que a maior parte das pessoas se aperceba, algo de muito diferente se está a passar nos países mais desenvolvidos. Nas casas, nas empresas, nas escolas, nas bibliotecas, muita gente se entrega hoje à tarefa de guardar textos e imagens em computadores. Na prática, o que está a fazer é digitalizar informação, traduzindo-a para a linguagem própria do computador. Por isso, alguns autores falam na emergência da sociedade digital ou da era digital.

Os meios de comunicação social não escapam a esta tendência verificada na sociedade. Já há muitos anos que o computador entrou nos vários departamentos das empresas jornalísticas, dando origem a reestruturações e a novos métodos de trabalho. Mas, agora, assistimos, com o fenómeno das redes de computadores, a alterações ainda mais profundas.

Toda a gente conhece hoje o significado de palavras como ouvinte, leitor ou telespectador. O termo "media" também se vulgarizou, passando a identificar jornais e revistas, rádio e televisão. A era digital, no entanto, está a colocar no mapa termos como "novo media" e "utilizador".

"Novo media", na acepção de Harry Marsh (1), professor na Escola de Jornalismo da Universidade Estadual de Kansas, serve para sublinhar a actual convergência de meios existentes, que incluem, entre outros, imprensa, teledifusão e cabo, num só meio digitalizado e multimedia. A Internet e a futura "auto-estrada da informação" surgem como canal privilegiado do "novo media", onde se conjugam e interligam textos, fotografias, vídeos e sons, que qualquer utilizador poderá manipular a seu bel-prazer.

Para se entender um pouco melhor o que tudo isto quer dizer, imagine, por exemplo, que a Ferrari apresentava hoje um super-carro no salão automóvel de Paris: uma bomba capaz de atingir 350 quilómetros por hora, de passar, em 30 segundos, de descapotável a tractor, e, para além disso, apta a descolar na vertical e voar na horizontal graças aos propulsores idênticos aos do avião Harrier. Ou seja, a Ferrari teria feito convergir a tecnologia de máquinas existentes (carro desportivo, tractor, avião) para criar um modelo completamente novo.

A pergunta seguinte seria: e estradas para esta loucura do dia-a-dia? Não existem, é claro. Teriam também de ser construídas vias completamente novas. É um pouco o que se está a fazer na Internet, para que textos, sons e imagens possam fazer mais que andar à velocidade de um Ford Cortina meio gripado.

O termo "utilizador", por outro lado, destaca a natureza participativa dos consumidores dos conteúdos do "novo media", simbolizando, ao mesmo tempo, a obsolescência de conceitos passivos, tais como telespectador e audiência.

O utilizador da Internet pode interagir com o meio a que está ligado bem como determinar os conteúdos a que quer ter acesso, quando quer ter acesso, enquanto o telespectador limita-se a assistir àquilo que foi previamente programado pelas estações de televisão.

Um exemplo prático: o jornal que a empresa Microsoft tem na Internet permite ao cibernauta personalizar o noticiário. Se só lhe apetecer ler todos os dias notícias sobre abelhas, o MSNBC disponibiliza-lhe apenas as novidades relativas àquele insecto himenóptero. Quem escolhe é você. E só vê publicidade se lhe apetecer. Desta forma, é permitido ao utilizador editar as suas próprias notícias, com a ajuda dos jornalistas que estão do outro lado da linha.

A transição para a comunicação de massas digital, computorizada, está a caminhar a um ritmo imparável. Aonde nos levará? Ninguém sabe ao certo. Mas, pelo sim pelo não, mais vale ficar atento. Bem atento.

(1) Harry Marsh, "Creating Tomorrow's Mass Media", Harcourt Brace, 1995 1

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