"O meu sonho para o interface
é que os computadores
venham a ser mais como as pessoas." Nicholas Negroponte
O comum dos mortais avesso aos computadores costuma dizer: "Não sei nem quero mexer nisso, faz-me grande confusão essa geringonça." O comum dos gurus das novas tecnologias prefere provocar: "O meu cão é mais inteligente que o meu computador."
O primeiro inclui-se no grupo claramente maioritário, constituído pelos excluídos da computação. Não percebe bem a utilidade destas máquinas infernais e entra em estado de agonia cerebral quando o amigo prega a partida de lhe colocar um rato e um teclado nas mãos. Sente-se justamente intimidado por aquele ecrã mudo sentado em cima da caixa com estranhas ranhuras e fios ao dependuro.
Apodera-se da vítima o pânico de, ao mínimo toque na tecla "enter" ou "shift", aquilo romper aos saltos e aos pinotes ou, pior ainda, ir pelos ares. Tal como se sentiria o maquinista do "Alfa" Porto-Lisboa se fosse colocado de repente aos comandos de um Boeing 737.
O comum dos mortais, no entanto, tem mesmo boas razões para se sentir pouco confortável em frente ao terminal. Apesar dos enormes progressos conseguidos no âmbito da relação directa homem-máquina, nomeadamente com a introdução do rato e do sistema de janelas, a verdade é que conversar com o computador ainda se revela uma tarefa algo complicada e exigente em termos técnicos para quem enfrente o "bicho" pelas primeiras vezes. Continua ainda a ser mais fácil dar ordens ao cão lá de casa. Se este não for um doberman com a mania do contra, é claro.
O que é que os militantes alérgicos à informática têm em comuns com as maiores cabeças do planeta na área da computação? Simples: o desejo de verem os computadores portarem-se como gente grande. Isto é, a dialogarem connosco em vez de chaparem a frio no ecrã as respostas aos nossos pedidos. A reconhecerem os seus donos pela voz ou pelo toque. A fazerem-nos perguntas "oralmente". Do género, "Alfredo, tem mesmo a certeza de que quer enviar esta mensagem electrónica inflamada e algo provocatória ao senhor Luís Judas?"
Nos seus laboratórios, um pouco por todo o mundo, os craques das ciências computacionais não param de investigar e de experimentar. Têm consciência das enormes limitações dos computadores pessoais de hoje, muito rápidos, gordos e potentes, sim senhor, mas pouco afectuosos e comunicativos. São ainda muito máquinas. Até os famosos "tamagotchi", apesar do seu reduzidíssimo tamanho, se mostram mais habilidosos na tarefa de exigirem mimos aos seus proprietários.
Não é portanto de admirar que os cientistas sonhem todos os dias com o HAL 9000, um computador da mais refinada ficção científica. É a grande estrela do filme de Stanley Kubric "2001: Odisseia no Espaço", baseado na obra escrita do genial Arthur C. Clarke.
O HAL fala como uma pessoa, demonstra inteligência e vontade próprias, apresenta refinado sentido de humor e até dá entrevistas aos terrestres. Tem tal personalidade que, no final do filme, tenta dar cabo da vida de um astronauta, demonstrando assim ter assimilado, de forma admirável, uma das principais capacidades do ser humano: a de destruição.
Os nossos computadorzinhos de agora ainda têm um longo caminho de aperfeiçoamentos a percorrer até se tornarem em algo parecido com o HAL, tirando a parte da destruição, como é evidente. Talvez um dia, quando menos esperarmos, apareça por aí um IBM ou um Toshiba a desabafar: "O meu sonho para o interface é que as pessoas venham a ser mais como os computadores."