Absolutamente impressionante a forma como os espanhóis mostraram nas ruas o seu repúdio contra o mais recente acto terrorista dos separatistas bascos. As imagens vistas cá através da televisão não deixaram, por certo, ninguém indiferente. Há qualquer coisa que bate muito forte, fundo mesmo, quando se vê milhões de pessoas transbordando ruas e praças, gritando e chorando por uma só vida humana, sustendo raiva contra um punhado de bárbaros. A própria História parece ficar suspensa por momentos.
Àqueles espanhóis, da Galiza à Catalunha, associaram-se muitíssimas vozes que não falam castelhano nem sequer, em muitos casos, conhecem casos de terrorismo separatista nos seus próprios países. Toda uma nova comunidade espalhada pelo planeta mobilizou-se perante o acto da ETA (Euskadi Ta Askatasuna). Essa comunidade é a dos cibernautas, nome mais comum dado aos cerca de 50 milhões de utilizadores da Internet, a maior rede de computadores do mundo.
Jornais espanhóis, como foi o caso de "El País", viram-se de súbito inundados por montanhas de mensagens de indignação, enviadas por correio electrónico, provenientes de países como o Brasil, México, Estados Unidos, Colômbia, Argentina, Países Baixos, Suíça e Alemanha. Outros cibernautas mais radicais apelaram mesmo a um bombardeamento de mensagens ("mail-bombing") dos computadores da Internet onde a ETA e seus seguidores têm páginas, através das quais propagandeiam as suas ideias, algo quase impossível de fazer através dos media tradicionais, como a televisão, a rádio e os jornais de grande circulação.
A solidariedade para com a sociedade espanhola e a família de Miguel Blanco foi igualmente expressa, por cidadãos espanhóis e não só, nas páginas da Internet do movimento anti-ETA Manos Blancas", criado após o assassínio, no ano passado, de um professor catedrático.
Talvez o ineditismo mais significativo deste movimento de solidariedade dos cibernautas ou internautas resida no facto de a condenação por eles encetada ter sido activa e consequente e não meramente passiva. Em vez de se terem limitado a expressar os seus sentimentos, concertaram rapidamente uma estratégia - mesmo estando em países diferentes - de forma a bloquearem os computadores com propaganda da ETA.
Este episódio vem assim dar razão àqueles que caracterizam a "comunidade virtual" como sendo fortemente politizada e empenhada, mesmo quando não identificada com as práticas políticas e organismos oficiais da "comunidade real".
Sai igualmente daqui reforçada a ideia de que a Internet pode efectivamente contribuir para a formação de uma "consciência global" ou, para utilizar uma expressão do filósofo Pierre Lévy, uma inteligência colectiva, "globalmente distribuída, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que conduz a uma mobilização efectiva das competências." (in "A Inteligência Colectiva - Para uma Antropologia do Ciberespaço").
O espírito de todo este movimento de solidariedade global ficou bem patente na maneira como alguns cidadãos fizeram questão em assinar as suas mensagens. O madrileno A. Alejandre, em carta enviada a "El País", escreveu simplesmente: "Ciudadano del mundo".
P.S. - Os sempiternos iluminados críticos de cinema (nem todos, é certo) da nossa minúscula praça jornalística lá continuam a dar, em preocupante uníssono, bolinhas pretas, ou seja, nota mínima, a filmes que vale mesmo a pena ver. É o caso de "O Oitavo Dia", de Jaco Van Dormael. Comovente, divertido, desconcertante, europeu e sem pipocas, foi simplesmente cilindrado pela falta das famosas estrelinhas, o paradigma do absurdo na classificação de sensibilidades. Parece que os críticos já não sabem ver cinema sem um manual de instruções ao lado. Resta-nos deixá-los a falar para as suas bolinhas pretas...