007: O amanhã já não é o que era

Hélder Bastos, JN, 20 de Dezembro, 1998

«O meu nome é Bond. James BMW Ericsson Nokia McDonald Cerruti Timex Timberland Nintendo Intel Microsoft Volvo de Toys Sou Eu Bond». Pelo andar da carruagem, esta poderá vir a ser a nova maneira publicitária de 007 se apresentar nos seus filmes.

Sem perder aquela sua inconfundível fleuma britânica e composta, talvez o herói venha a ganhar em porte caricato o que tem vindo a perder em banzé publicitário. Em todas as suas aventuras, como é sabido, Bond lança charme para cima de um pelotão de mocinhas, todas elas com as medidas da Sofia Aparício. Ora, será de desmanchar a rir vermos as novas frases de apresentação do artista repetidas montes de vezes. Talvez até com certas variações. Do género: "O meu nome é Bond. James... Não Perca a Fantástica Promoção de Natal da Singer! Bond.»

Bond é hoje, talvez mais do que nunca, um boneco rendido à feira publicitária e colocado cada vez mais ao serviço desta. Poder-se-á argumentar que daqui não vem nenhum mal ao mundo. É verdade. Não vem mesmo. Mas, será assim tão divertido tornar o agente secreto mais famoso do mundo do cinema numa espécie de cabaz de Natal natalício multi-marcas, como está a acontecer agora? Nos últimos dias, revistas e jornais saturaram com tanto Pierce Brosnan a dar a cara pelo Bond e pelos carros, motas, relógios e telemóveis que aparecem em «O amanhã nunca morre». Por este andar, os filmes do 007 serão espectáculos completamente alucinantes daqui a, digamos, vinte anos.

Puxemos um pouco pela imaginação. 19 de Dezembro de 2020. Estreia «007: O amanhã já não é o que era». O filme é visto, pela primeira vez, em realidade virtual. As 1300 personalidades convidadas para a "première" utilizam capacete próprio, luvas e fatos especiais de modo a sentirem-se completamente mergulhados no interior da aventura.

O actor escolhido para interpretar o papel de Bond não existe na realidade. É virtual, barato, não faz birras durante a rodagem nem se queixa ao sindicato. Foi criado por computador, com o patrocínio da Real Computers, empresa do grupo Nestlé nascida há apenas seis meses. A sessão de estreia, por sua vez, tem o alto patrocínio da marca de gelados "Ai Se", cujos 73 diferentes sabores são experimentados, em cenas que fariam corar Pier Paolo Pasolini, pelas "Bond girls" durante as quatro horas e meia de filme.

A aventura começa com uma empolgante cena de perseguição nas ruas de Pequim. Bond tenta escapar a um perigoso agente da Mossad, meio-homem, meio-cyborg. O nosso herói tem mesmo boas razões para se pôr rapidamente a milhas. O israelita, para além de medir quase dois metros de altura e possuir uma pistola sónica Xugun Atira Colo, é patrocinado pela NBA.

Nesta sequência, Bond, James Chocolates Chicago Bulls Bond, troca 24 vezes de veículo. Para saltar abismos e tornear precipícios foge ao volante de um potente Taunus de doze cilindros. Logo a seguir encavalita-se, sucessivamente, nas versões coupé, cabriolet, familiar e todo-o-terreno da Yugo. De súbito, um rio cheio de jacarés, amavelmente cedidos à produção pelas carteiras Malex. Bond agarra numa mota de água e em dois "hovercrafts" construídos pela Sony, empresa que também apostou nos camiões quadri-turbo com que 007 acaba por esmagar o agente da Mossad contra um muro de betão, patrocinado pelos cimentos Rockter.

A saga, bastante animada, prossegue. Ao fim dos primeiros dez minutos de fita, vemos Bond, com sapatos Lambert em grande plano, a afastar-se muito rapidamente de um caça F-1666, com asas da Fuji e pneus da recentemente fundada Bo Racha, já cotada na filial de Wall Street no Paquistão. O avião está prestes a explodir. Explode. As pessoas gritam, histéricas, na sala. O filme pára de repente. É tempo para anunciar pipocas. Experiência única de sentidos.

A publicidade em realidade virtual permite aos espectadores sentirem-se mesmo como se estivessem bem dentro da pipoca na sua viagem até ao estômago. O aroma de milho frito inunda por completo a sala. Envolvência total dos sentidos.

Dos altifalantes incorporados nos capacetes de realidade virtual, com som "dolby surround pro logic plasma tera dimension", patrocinado pela Audiolab, sai uma voz grave, a do actor James Earl Jones: «Senhores espectadores: os próximos dez minutos de Bond são um rigoroso exclusivo das salsichas «Bond Pro Natura».

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