Nos últimos anos, a proliferação e diversificação dos media portugueses acabou por dar origem, entre outras coisas nem sempre fáceis de aturar, à emergência do "mediático". Apareceu tão depressa que ainda hoje apanha os dicionários com as calças na mão. Procure-se o significado da palavra mediático e não se encontra, ao contrário, por exemplo, do termo "lunático" ("influenciado pela Lua; maníaco; excêntrico; fantasista; sonhador; atoleimado; extravagante; s. m. aquele que tem manias).
Mediático deriva da palavra media, utilizada hoje abundantemente por pessoas com intenções de se referirem, em especial, à televisão, à rádio, aos jornais e às revistas. Media é prática e económica, pois resume "meios de comunicação social".
Mediático, se nos referirmos apenas a pessoas e não a acontecimentos, será então o sujeito que, em primeiro lugar, "resulta" em televisão. "Resulta" em rádio. Fica bem nas fotografias da "TV Guia". Fala bem e, de preferência, debita pesados discursos em 30 segundos. Não se engasga frequentemente nem tão pouco se presta a divagações de índole académica. Tem boa imagem. Se for sexy, tanto melhor. Não dá respostas curtas e secas aos entrevistadores, do género "sim, acho", a questionamentos eloquentes: "Sr. doutor, não acha que o caso dos "Donos da Bola" configura um caso gravíssimo de abuso de liberdade de imprensa e de devassa da vida privada, para além de constituir uma real machadada na já muito debilitada credibilidade do futebol nacional? E, já agora, acha que aquele médico estava no seu perfeito juízo quando falou em homicídio por audiovisual?"
O mediático é essencialmente uma criação do pequeno ecrã. No seu período de estágio ou de aspirância ao título, saltita de programa em programa, de convite em convite, consubstanciando essa divertida modalidade chamada tele-panelinha. A panelinha audiovisual assemelha-se àquele jogo em que pessoas giram à volta de cadeiras até alguém dar sinal para se sentarem. Com uma diferença: no jogo há sempre uma cadeira a menos. Na TV há sempre mais uma cadeira.
Dantes, quando espreitávamos montras das casas de móveis ou artigos para o lar e demais penduricalhos, víamos fotografias do Ayrton de Senna ou da Sharon Stone encaixilhadas nos "passe-partout" à venda. Agora, propõem-nos as caras da "Caras", com as apresentadoras de televisão a levarem a melhor sobre as estrelas de Hollywood.
A TV impregna o sujeito com aura mediática. Os outros media fazem o resto do tratamento. Neste particular, já estamos ao nível dos países mais desenvolvidos, onde se diz, sem grande exagero, que quem não aparece no ecrã, de preferência em horário nobre, simplesmente não existe.
Antigamente, gente da alta, como a Condessa de Gencé, dava-se ao laborioso trabalho de compilar regras de etiqueta e boas maneiras para pessoas de bem cumprirem nas suas obrigações sociais. Talvez esteja na altura agora de criar outro tipo de guias. Talvez um "Como falar na TV sem esfrangalhar os nervos."
Regra número um a defender nesse hipotético livrinho (sem grandes rodeios porque a vida está muito difícil para toda a gente): arranje uma boa cunha para o meter num programa qualquer debitando sobre qualquer tema. Depois deste baptismo, choverão os convites para palestras sobre a pertinência dos querubins pós-modernos, debates sobre o papel da salada russa no conflito dos Balcãs, seminários sobre a relação entre os padres e a teoria da relatividade, tertúlias à volta do fim do mundo, mesas redondas sobre bestas quadradas.
Ser mediático até é capaz de ser divertido nos primeiros tempos. Mas depois de algum tempo, deve começar a provocar vertigens, quer aos próprios, quer a quem tem de os aturar a toda a hora. Aí, o povo, espertalhão, começa a desconfiar de tanto tacho junto nas mesmas cozinhas.