Revolução digital

Hélder Bastos, JN, 26 de Abril, 1997
Para a maioria dos deputados da nação, o ciberespaço, a Internet e a Sociedade da Informação são conceitos tão compreensíveis como os caracteres chineses. Aqui fica uma sugestão: peçam a um colega de bancada, situado no ano de 1997, para vos mostrar o arquivo de Mário Soares ou o Centro de Documentação 25 de Abril na Internet.

Recentemente, o Expresso publicava, no suplemento Media XXI, um artigo confirmando o pior. A esmagadora maioria dos deputados, que têm em mãos o Livro Verde para a Sociedade da Informação, está a leste destas matérias. Não tem "cultura digital". Isto é, não conhece nem compreende o conjunto das enormes transformações tecnológicas, com implicações sociais, políticas e económicas incontornáveis, em curso nas sociedades modernas. É como imaginar um deputado em plena Revolução Industrial ignorando por completo o impacto desse estranho amontoado de ferros fumegante com rodas pesadas chamado comboio.

Os deputados, ao contrário da maioria dos portugueses, não podem desculpar-se com falta de meios financeiros para terem acesso às novas tecnologias. Só não têm porque não querem ou porque não estão para aí virados. Mas era bom que começassem a perceber que Portugal não gira apenas em torno dos donos da bola e dos sopapos na moleirinha de Artur Jorge.

Talvez a maior fatia dos detractores da Internet e outras ferramentas da era digital resida, no entanto, no preconceito. Ou melhor, num amontoado deles. Ouvem-se, mais ou menos à socapa, argumentos do género: a Internet é mais um produto do imperialismo americano; é tudo em inglês; é coisa para fanáticos dos joguinhos de computador; é mais um instrumento de alienação das massas; vai corromper com pornografia a cabecinha dos mais pequeninos; desculpem lá, mas não percebo nada dessa porcaria nem quero perceber!

Qualquer grande transformação tecnológica, como a que agora estamos a viver, causa ansiedade às pessoas. Levanta novas questões e destapa novos problemas. Gera necessidade de adaptações. Face a tudo isto, a atitude mais aconselhável seria, primeiro, conhecer como é, estudar como funciona, pensar como resulta e, só depois, criticar, rejeitar, remediar ou propor. Era isto que muitos deputados, professores, estudantes, pais, encarregados de educação, empresários, deveriam fazer antes do "até tremo só de ouvir falar nessa geringonça".

A Fundação Mário Soares acaba de dar um rude golpe no preconceito lusitano relativo à Internet. Montou um excelente sítio ("site", na gíria dos utilizadores da rede) onde pode ser consultada uma vasta documentação ligada à vida do ex-presidente da República.

Qualquer utilizador da Internet, esteja no Porto, em Tóquio, Londres ou Rio de Janeiro pode hoje pesquisar este vasto arquivo digital, para já com documentação anterior ao 25 de Abril de 1974, sem ter de se deslocar à sede da Fundação Mário Soares. O sistema permite pesquisa por palavras-chave. Por exemplo, se pusermos as palavras Soares e Cunhal são-nos colocados à disposição cerca de 620 documentos, divididos em textos e fotografias. Entre estas figura, por exemplo, a reprodução da ficha fotográfica na PIDE do cidadão Mário Alberto Nobre Lopes Soares.

O sítio da Fundação Mário Soares permite ainda ligar a outros arquivos da Net. Como é o caso do Centro de Documentação 25 de Abril, da responsabilidade da Universidade de Coimbra. Aqui podemos encontrar a cronologia dos factos, o 25 de Abril de hora a hora, a listagem de documentos que marcaram os anos de 1974 e 1975, um catálogo bibliográfico, bibliografia detalhada sobre a Revolução dos Cravos, a história do sistema político português e o Arquivo Electrónico da Democracia Portuguesa, com documentação multimedia, isto é, composta de texto, som e imagem. Dá para ouvir músicas de Zeca Afonso ou Adriano Correia de Oliveira, ler biografias de políticos ou analisar dados históricos sobre os partidos portugueses.

Está na altura de a maioria dos deputados começar a ter umas aulas sobre a era digital. O sumário da primeira poderia ser: "Os cravos e os bits". 1

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