O leitor já se terá, por certo, perguntado: isso de entrar no jornalismo, como é? O que é preciso para uma pessoa se tornar jornalista?
O autor de um conhecido texto de comunicação põe o problema da seguinte maneira: um indivíduo torna-se jornalista quando declara que é jornalista. E permanece com o título enquanto continuar a dizer que o tem. É difícil pensar em outra ocupação de importância semelhante para a sociedade que exerça tão pouco controlo sobre si própria. Não há exigências para o acesso À profissão, não há um código de ética explícito, não há um sistema para repelir os incompetentes e os patifes (1).
Posto isto, como são controlados os jornalistas na sua prática diária? Através de que mecanismos são mantidos leais aos seus editores, directores e administradores?
Alguns analistas da Imprensa falam nos chamados «controlos informais». Estes são bem mais subtis do que os esquecidos códigos éticos ou as fracas exigências de acesso.
A mais importante forma de controlo «informal» no interior das redacções será a autocensura. O jornalista trata de impor travões a si mesmo. Ele sabe que há riscos a não pisar, embora estes não estejam escritos em lado algum. Raramente um jornalista ultrapassa os limites impostos, directa ou indirectamente, pela empresa que o emprega. O fio da navalha do jornalista é complicado. Como sabe ele o que deve ou não fazer? Por onde começar e quando acabar? O que incluir num texto? O que deixar de fora? O que destacar numa peça? Quais as palavras certas a escrever para evitar um berro do editor?
Os primeiros anos passados numa redacção são cruciais para as respostas a estas interrogações. Os novatos lá se vão apercebendo de que, a maior parte das vezes, comer e calar, cumprir sem protestar, continuar em vez de questionar, é mais recompensador para uma «carreira de sucesso» a longo prazo.
Profissionalismo e "status quo" andam numa guerra permanente. O conflito é agravado pela inexistência de regras gerais a cumprir por todos. O Código Deontológico é letra morta. Cumpre quem quer. Por isso, há quem faça uma distinção curiosa entre ocupação e profissão. O jornalismo seria mais uma ocupação do que uma profissão. Porque, teoricamente, ao contrário dos médicos ou dos advogados, os jornalistas têm poucas regras comuns a cumprir. Poderá ser uma distinção discutível. Mas ajuda a perceber o problema do funcionamento dos profissionais da Imprensa.
Uma das consequências dos «controlos informais» no interior dos media é da inibição da criatividade. Arrisca-se menos, ousa-se de uma forma moderada. De facto, «as práticas nos media limitam os impulsos imaginativos dos profissionais através de controlos que encorajam a conformidade, escreveu Mark Schulman, professor de comunicação numa universidade de Nova Iorque.
Diariamente, o jornalista é pressionado por factores como as horas de fecho das edições dos jornais, a correria para os sinais horários nas rádios, a montagem rápida e rotineira da peças nas televisões. O ritmo acelerado torna-se mais propício à eficiência do que à criatividade ou à experimentação. Neste ambiente, é forte o apelo ao autocontrolo e fraca a apetência pelo risco.
(1) citado em «The News at any cost», de T. Goldstein, Simon & Schuster, Nova Iorque, 1985.