Por causa deste panorama, muitas organizações jornalísticas procuram, há vários meses, remédios para tratar os jornais. A ideia é encontrar melhores formas de informar os cidadãos e de trazê-los de volta à leitura.
A Imprensa tem descido na consideração dos leitores por, entre outras razões apontadas, ser cada vez menos exacta, verdadeira, equidistante ou honesta. Por se perder em competição desenfreada e acabar tentada pelo sensacionalismo. Por não perceber o que é que os leitores esperam dos seus jornais. Por os leitores já não terem pachorra para aturar a arrogância e a falta de sensibilidade de muitos jornalistas.
"Só que agora, graças às novas tecnologias, o público não tem que aguentar mais: cada dia que passa, as pessoas têm mais alternativas aos tradicionais meios de informação" (1).
O número de leitores de jornais diários têm vindo a diminuir. Howard Kurtz, especialista em meios de comunicação de um dos jornais norte-americanos mais importantes, o Washington Post, diz que é preciso "voltar ao futuro" para dar a volta a este problema.
É preciso, pede Kurtz, voltar a escrever sobre injustiças e ultrajes. Contar aquilo que as autoridades não querem que se saiba. Prestar maior atenção aos problemas das pessoas e perder menos tempo com frases abstractas e notícias escritas para os amigos. É preciso que os jornalistas saibam romper com a tirania dos especialistas, "que nunca descobriram a bancarrota de um banco nem intuiram o impacto do SIDA" (2).
O crítico de imprensa pede ainda que se recupere o gosto pelo boa escrita e que se acabe com a prática cómoda de encher as páginas dos diários com conferências de Imprensa e actos oficiais cinzentões.
A estas propostas de Howard Kurtz, uma associação que reúne todos os chefes de redacção dos diários norte-americanos junta outra, mais ousada: todos os diários deveriam subscrever uma declaração escrita de normas éticas, que seria publicada por esses mesmos jornais e que faria parte dos planos de estudo das escolas de jornalismo.
Desta forma, os leitores passariam a ter a possibilidade de comparar o trabalho dos jornalistas com as regras defendidas publicamente pelos seus jornais. Isto é, tornar-se-ia mais complicado aldrabar quem lê.
A Organização de Defensores dos Leitores de Jornais, que teve a sua reunião anual há cerca de um mês, considera que a proposta dos chefes de redacção seria um bom instrumento para proteger os leitores dos erros e vícios jornalísticos.
O texto proposto pelos americanos aborda normas pouco conhecidas e discutidas por cá. Recomenda que os jornalistas não possam trabalhar em áreas em que tenham interesses particulares. Por exemplo, se escreverem sobre informação económica e tiverem acções na bolsa. Se forem assessores de uma galeria e fizerem crítica de arte. E assim por diante.
Aconselha ainda os jornalistas a actuarem como "vigilantes" das principais instituições da sociedade e a controlarem a conduta das finanças públicas, tanto do governo como do sector privado. Mas recorda que a Imprensa é uma dessas instituições e que, por isso, também deve ser vigiada.
Embora sejam practicamente ignoradas pelos "media" portugueses, estas questões têm dado muito que discutir. Só que, desta vez, os leitores são convidados a entrar na discussão. Antes que fujam de vez.
(1) Columbia Journalism Review, Janeiro/Fevereiro 1994
(2) El País, 22 de Maio de 1994