Uma rádio para ver

Hélder Bastos, JN, 18 de Outubro, 1997

O mundo da radiodifusão está prestes a mudar radicalmente. A chamada rádio digital está mesmo aí a bater à porta. Com ela vamos poder ouvir música no carro ou em casa com a mesma qualidade de som que obtemos de um disco compacto. Ouvir rádio nunca mais será a mesma coisa.

Nalguns países da Europa, como a Suécia, França, Alemanha ou o Reino Unido, já se fazem emissões com a qualidade do som assegurada pela rádio digital, mais conhecida pela sigla DAB (Digital Audio Broadcasting). Com esta tecnologia, as velhinhas Onda Média e Frequência Modulada ascendem à categoria de relíquias.

Provavelmente, muita gente que quase deixou de ouvir rádio em Portugal, devido, quer à falta de qualidade de transmissão, quer à degradação generalizada da qualidade dos programas, voltará a fazer as pazes com este valioso meio de comunicação.

Caberá aos responsáveis das emissoras empenharem-se no acompanhamento deste passo tecnológico gigante com a devida qualidade das grelhas de programação e informação. Desta forma se contribuirá para que os ouvintes tenham de novo um verdadeiro prazer em sintonizar os seus receptores que, naturalmente, terão de ser actualizados. Os "velhos" auto-rádios comprados há quinze dias não servem para ouvir DAB.

O mesmo acontecerá às televisões quando chegar a televisão digital. Lá se vão as sofisticadas "trinitron nicam stereo" para a sucata.

A qualidade sonora, no entanto, não é a única vantagem da rádio digital pois cada estação poderá transmitir juntamente com o som uma quantidade enorme de dados úteis para o ouvinte. Enquanto a música toca pode saber-se quem é o artista, como está o trânsito ou vai estar o tempo ou qual a programação para as próximas horas. Mais: o ouvinte poderá ver fotos ou consultar mapas no pequeno ecrã do novo receptor, que se parecerá mais com uma espécie de mini-computador do que outra coisa qualquer.

Veja-se este pequeno excerto do livro "Radio's Role on the Information Highway" (O Papel da Rádio na Auto-estrada da Informação): "Sandra é uma ouvinte de rádio típica no ano de 2005. De manhã, o alarme do seu rádio digital acorda-a com a música e animadores da sua rádio local favorita. Carrega no botão "boletim meteorológico" do seu rádio e este transmite o mais recente boletim da rádio, gravado para ela. Sandra podia assinar um serviço de rádio meteorologia para actualizações contínuas sobre o estado do tempo, mas o serviço gratuito era o suficiente durante oito meses do ano. Durante o Verão, a sua família assinava o serviço meteorológico de amantes de barcos." Um excerto substancialmente maior do livro está disponível num interessante e animado sítio português da Internet chamado "A Telefonia Virtual".

Tudo isto é, de facto, muito bonito. Só que há, para variar, o pequeno problema de sempre de Portugal quando se fala de ciência e de novas tecnologias: o atraso. "Portugal é, neste momento, dos países europeus com maior atraso no DAB", escrevia recentemente num jornal o presidente do Conselho de Administração da RDP.

O problema parece ter a ver, igualmente para variar, com a falta de decisões políticas consequentes em relação à matéria. Se elas tivessem sido tomadas a tempo, a RDP, a acreditar nas palavras de José Manuel Nunes, já poderia ter no ar emissões de rádio digital desde o mês passado. Pelo menos em Lisboa e no Porto.

Até quando vamos ter de esperar até nos podermos dar ao "luxo" de ouvir uma "Antena 2" digital, sem aquelas interferências de fundo que parecem vindas aos trambolhões de outra galáxia?

1

Hosted by www.Geocities.ws