Derrick de Kerckhove, autor do livro recentemente traduzido para português "A Pele da Cultura", uma investigação sobre a nova realidade electrónica, defende que sim. Aliás, o título desta crónica é precisamente uma frase retirada desta obra do conhecido discípulo de Marshall McLuhan.
Yuppies e cyberpunks representam maneiras distintas de estar em sociedade, ou melhor, nas sociedades mais desenvolvidas, nomeadamente sob o ponto de vista tecnológico.
Quando falamos em yuppies vêm-nos à cabeça imagens algo estereotipadas. Rapazinhos jovens de ar saudável, cabelo brilhante embebido em gel ou mousse, pastinha de pele preta com botões de código dourados. Enfim, carteira recheada de cartões de crédito, fatos Boss ou Armani, chaveiro BMW ou Volvo topo de gama e não poucas vezes dívidas até ao pescoço.
O sistema de valores dos "boys" de sucesso, imagem de marca dos anos 80, assenta em critérios de excelência profissional. Ser o melhor, chegar mais alto, não olhar a meios para atingir fins.
A postura yuppie baseia-se na agressividade em relação ao outro e na crença profunda das virtudes da competição. O realizador norte-americano Oliver Stone ilustra bem o tipo no seu filme "Wall Street", exibido há pouco tempo na TV.
Valores diversos parecem simbolizar os cyberpunks dos anos 90. Têm em comum com os yuppies o facto de constituírem uma elite, com acesso a novas tecnologias, em particular às redes de computadores, como a Internet.
Estes frequentadores do ciberespaço, no entanto, regem-se por regras e posturas diferentes.
O cyberpunk, tal como sugere Kerckhove, valoriza a interactividade, a relação espontânea com os outros frequentadores do espaço virtual. Prefere a troca desinteressada, nomeadamente de ideias ou de informações, ao jogo de influências. Prefere ajudar e colaborar do que vencer e derrotar alguém, a não ser, talvez, todos aqueles que manifestem intenções de aplicar leis ou censuras à Internet. Há qualquer coisa de hippie no cyberpunk.
Espécie de boémio da tecnologia, o cyberpunk começou por ser pirata informático, ou hacker. Só pelo gozo de entrar nos sistemas informáticos de bancos, departamentos governamentais, serviços mais ou menos secretos e onde lhe desse na cabeça. Ele manipula a tecnologia só para ver se é capaz, misturando a mestria do hacker com a alienação típica do punk.
O cyberpunk estará, pois, no centro de uma cultura emergente chamada cibercultura. Kerckhove também lhe chama a terceira era mediática, produto da multiplicação da massa pela velocidade, com as tecnologias do vídeo a serem intensificadas pelas tecnologias dos computadores. "Enquanto a televisão e a rádio nos trazem notícias e informação em massa de todo o mundo, as tecnologias sondadoras, como o telefone ou as redes de computadores, permitem-nos ir instantaneamente a qualquer ponto e interagir com esse ponto."
O livro "A Pele da Cultura", escrito pela pena de quem é, há mais de 20 anos, director do Programa McLuhan em Cultura e Tecnologia na Universidade de Toronto, explora estas e muitas outras questões em profundidade e com imaginação. É uma obra rica em reflexões sobre os efeitos dos media electrónicos, encarados como extensões do corpo e da psicologia humana, na sociedade. Indispensável.