Fica para a próxima

Hélder Bastos, JN, 14 de Junho, 1997
As reportagens publicadas num jornal electrónico na Internet podem ou não ganhar os mais prestigiados prémios do jornalismo? A resposta não é nada fácil. Que o digam os membros do júri do prestigiado galardão Pulitzer.

O Pulitzer é uma espécie de medalha olímpica de ouro para os jornalistas norte-americanos. Recompensa apenas profissionais da escrita e da fotografia. Rádio e TV não contam para este totobola. E quanto a esse novo e irrequieto meio de comunicação chamado Internet?

Acontece que este ano, pela primeira vez, vários órgãos de comunicação social candidataram reportagens electrónicas, difundidas nos seus respectivos jornais na Internet, ao Pulitzer. A aposta arrojada deixou o júri completamente a patinar. Nunca na vida se tinham visto perante tal dilema. Pelo sim, pelo não, lá decidiram criar uma comissão própria para decidir se aquelas estórias em formato digital deviam ser consideradas gente no jornalismo. Não foram.

As reacções não se fizeram esperar. O jornalista Dan Gillmor, por exemplo, escreveu no San Jose Mercury News: "É evidente que era necessário inclui-las (as reportagens digitais). Quanto mais não seja porque não haverá mais diferenças entre novos e velhos media. Mas este gesto implicaria uma profunda redefinição do jornalismo escrito, com consequências que transcendem a nossa profissão. A partir do momento em que transpomos o jornalismo para o mundo digital, as diferenças entre os media perdem o seu significado."

É de crer que aquela expressãozinha "profunda redefinição do jornalismo escrito" gele muita coluna vertebral. Porque é precisamente disso que se trata quando falamos de jornalismo digital. Por isso, entende-se uma certa ansiedade por parte das pessoas ligadas ao mundo do jornalismo um pouco por todo esse planeta fora.

Boa parte desta gente ainda não percebeu que a Internet é, de facto, um novo meio de comunicação e não uma agência de diversão radical e serviços à medida do cliente mais esquisito. Tem os seus emissores que podem ser simultaneamente receptores e vice-versa. Tem os seus canais, as suas mensagens, códigos, regras (ou falta delas...). O que baralha a cabeça de pessoas como os membros da administração do Pulitzer é que a rede não tenha um centro de emissão ou de controlo.

O facto de no ciberespaço o centro estar em todo o lado gera confusão quando comparado com o modelo dos media tradicionais, baseado no "eu transmito daqui, tu limitas-te a receber aí."

Persiste um profundo, embora compreensível, desconhecimento da natureza deste novo espaço de mediação onde, por sinal, já dezenas e dezenas de jornalistas trabalham em regime de exclusividade. É aqui que pesquisam, produzem e publicam as suas notícias e reportagens, em muitos casos conjugando texto, som e imagem, muito antes de serem impressas no papel do jornal do dia seguinte. Os princípios jornalísticos tradicionais não são aqui postos em causa.

Portanto, nada, a não ser preconceito ou ignorância, justifica a exclusão das reportagens digitais de prémios de jornalismo. É um pouco como considerar que o músico francês Jean-Michel Jarre não tem direito a ganhar "Emmys" porque, em vez de tocar com uma guitarra acústica de doze cordas, entretem-se a fazer mimos a uma harpa de raios laser.

Quando os sintetizadores começaram a ser utilizados por grupos de rock, a reacção foi idêntica: isso nem é música nem é nada! E há quem continue a achar isso. Tudo bem. Mas já ninguém perde prémios por isso.

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