O presidente das audiências

Hélder Bastos, JN, 24 de Janeiro, 1998

O presidente dos Estados Unidos soma e segue nas alhadas. Já todo o mundo o sabe. Aliás, o fenómeno fantástico da globalização da informação tem destas coisas: até o mais distraído e pacato cidadão javanês pode estar a par do design curvilíneo genital de Bill Clinton. Mexericos e pormenores sórdidos à parte, o episódio que agora envolve Clinton, baseado no romance com a jovem estagiária Monica Lewinsky, serve bem para observarmos a actual dinâmica dos meios de comunicação social.

Desde logo, uma debandada caricata salta à vista. As vedetas das cadeias norte-americanas de televisão piraram-se como mísseis de Havana logo que o cheiro a escândalo e possível destituição presidencial lhes chegou expressamente de Washington. Fidel e o Papa nada podem contra o suculento néctar de audiências proporcionado pelas escapadelas do inquilino da Casa Branca. Agora, se atirarmos para esta fogueira achas explosivas como alegado perjúrio e obstrução à justiça, o caso torna-se mesmo apetitoso sob o ponto de vista jornalístico.

Nos Estados Unidos, os jornalistas têm por bom hábito publicarem livros sobre as memórias e os bastidores da sua profissão. Este episódio vai com certeza proporcionar excelentes capítulos. Que o diga Michael Isikoff, da revista "Newsweek". Tinha a "cacha" na mão, mas os seus chefes atrasaram a publicação da prosa escaldante. Resultado: o diário "Washington Post" levou a melhor. Iskoff, naturalmente, atirou-se ao ar de fúria.

O mais interessante veio a seguir. Os responsáveis da revista tentaram emendar a mão recorrendo ao ciberespaço. Publicaram em exclusivo, na operadora privada America Online, um artigo com excertos de conversas secretas entre Lewinsky e uma funcionária da Casa Branca. Ontem mesmo era possível ler passagens daquele mesmo artigo na edição da CNN na Internet.

O movimento noticioso gerado na rede por este caso é enorme. Sondagens, inquéritos, últimas notícias, rubricas do género diga-nos o que pensa, grupos de discussão em tempo real e documentos especiais multiplicam-se nos jornais e revistas em linha.

A rede mundial de computadores torna-se imbatível como meio de publicação de informação simultaneamente exclusiva, imediata, em cima do acontecimento e pormenorizada. Ela já começou a mudar as regras dos escândalos.

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