Pó dançando no ar

Hélder Bastos, JN, 5 de Setembro, 1998

Os caçadores de pedófilos virtuais exibiram troféus de peso esta semana. A «Operação Catedral» levou à detenção de mais de cem pessoas envolvidas na troca de imagens infantis chocantes na Internet. Apesar do aparato, fica-nos a sensação de que se apanhou apenas peixe miúdo.

Foi notícia de primeira página em todo o lado. Polícias de vários países, entre os quais Portugal, conjugaram esforços para apanhar gente sem escrúpulos que usa a rede mundial de computadores para alimentar um mercado de consumidores de fotografias pornográficas com crianças.

Polícias entraram em apartamentos, apreenderam material e detiveram os donos. Rápido, pronto, eficaz e, tudo o indica, sem grandes problemas para as próprias polícias.

Este raid súbito ampliado pelos media faz lembrar aquelas notícias que nos aparecem ciclicamente sobre as «grandes» apreensões de droga. Uns quilitos aqui, umas gramas acolá, mais um «dealer» para a choldra, e assim se vai tranquilizando a sociedade civil. Entretanto, o negócio prospera, os tubarões nadam em dólares e o sistema, impotente, fecha os olhos, tal a quantidade de pó dançando no ar.

A celeridade da «Operação Catedral» contrasta flagrantemente, por exemplo, com o escândalo da pedofilia na Bélgica. Aí, não estavam em causa uns quaisquer carolas da pornografia infantil. Estava em jogo todo o sistema, desde "altas individualidades", à polícia, aos tribunais. Tudo foi chocantemente vagaroso, para desespero dos incrédulos cidadãos belgas.

Na velha Europa, bem como em dezenas de países fora dela, a indústria do sexo, incluindo a que explora crianças, gera milhões de contos por ano, o que, bem vistas as coisas, até dá muito jeito à balança das nações mais pobres. Filipinas, Tailândia, Indonésia, Brasil e Malásia, entre outros, entregam, por negligência, milhares de crianças aos "turistas do sexo" e a todo o tipo de pedófilos. Na Madeira, como se sabe, falar em pedofilia é mau para o turismo da ilha.

Donde, é preciso enquadrar a «Operação Catedral» na problemática extremamente complexa e abrangente que é a da pedofilia nos nossos dias. Não é difícil concluirmos tratar-se de mais um episódio em que se tenta dar cabo de elefantes com mata-moscas. A operação desta semana ficou-se mesmo pela «catedral». Não chegou ao «vaticano».

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