O passo suspenso do jornalismo

Hélder Bastos, JN, 25 de Outubro, 1997

Por vezes, o jornalismo parece uma caixa de Pandora. Permanece durante tempos infinitos sobre si próprio. Mas quando a tampa lhe salta apanhamos com os seus monstrinhos mais inesperados e grotescos em cima.

Os últimos tempos foram invulgarmente férteis em más notícias para quem gosta, ou ainda se atreve a acreditar, nesta disciplina. Mais ainda para quem valoriza a liberdade de expressão, de crítica e de criação e despreza a voracidade sem escrúpulos por lucros imediatos, conjugada com um aflitivo vazio de ideias e uma bajulice no mínimo preocupante.

Vejamos. A "manif" das louras em Lisboa foi tudo mascarada. Por trás da máscara, a SIC, quem mais... Os jornais paparam a farsa com honras de primeira página provando à saciedade o cuidado que colocam na confirmação dos factos e no aprofundamento dos mesmos. Não há problema. Dá-se e depois desmente-se. Desmente-se e volta-se a dar. Como no jogo das cartas.

A Direcção do semanário "Expresso" resolveu suspender a humorada crónica de João Carreira Bom. Razão? O cronista, ao fim de sete anos de colaboração ininterrupta, atreveu-se a tirar do coldre a caneta carregada de tinta sarcástica apontada direitinha à cabeça, imagine-se, do "boss". É verdade que o "boss", conhecido pela sua bonomia e altivez perante críticas dos seus empregados, fornece uma orgia de lixo televisivo e pasmaceira audiovisual a milhões de telespectadores portugueses e isso tudo. Mas essas coisas não eram para dizer no jornal do "boss". Ainda para mais com laivos de ironia em tom caricatural.

O episódio, no entanto, foi altamente esclarecedor. Mostrou-nos que, enquanto consumidores dos conteúdos dos meios de comunicação social, devemos ter sempre um pé atrás. Os dois até, nalguns casos. Pois isso de completas independências editoriais em relação aos donos, elevação intelectual destes perante a crítica, capacidade de encaixe, distância democrática e amadurecida e outras tretas estrabicamente alimentadas ao longo dos anos espatifam-se num instante contra o muro do pragmatismo. Percebemos ser clara e expressamente proibido pisar certos riscos. Como naquela cena do filme "O Passo Suspenso da Cegonha", do realizador grego Theo Angelopoulos, em que alguém suspende o seu pé mesmo por cima da linha de fronteira entre dois países. Ao fundo, do outro lado, armas em riste prontas a abater aguardam apenas que o pé suicida se atreva a descer até ao risco. Foi o que Carreira Bom fez. Foi o que o cartonista António fizera quando desenhou um preservativo no nariz do Papa. É o que tentam fazer muitos jornalistas no seu dia-a-dia.

O jornalista Daniel Psenny escreveu em francês um texto certeiro até em português. Foi no "Le Monde" a propósito de um documentário, assinado por uma correspondente de uma estação belga, sobre a SIC. Frase a reter: "Ao longo deste documentário, somos surpreendidos pela franqueza destes profissionais do audiovisual que se comportam como verdadeiros mercenários do dinheiro e gozam completamente com o telespectador." Aí está o que há muito se sabia mas cuja crueza ainda não tinha sido registada pelo olho mágico da câmara de filmar. Para que não restem dúvidas.

É a velha história. A televisão em si é um meio de comunicação poderoso, eficaz e espectacular. Comandada por cérebros de broca pode tornar-se uma arma letal destinada à mui nobre tarefa de vender presidentes da República e sabonetes.

E depois de todo este barulho para nada, o que fica? Depois de esmagar, vender, abanar, lucrar e cantar vitória não haverá algo de mais nobre a fazer? Aonde querem chegar? São perguntas que apetece fazer aos "yuppies" tardios responsáveis pelo actual clima tonto que se vive na comunicação social portuguesa.

1

Hosted by www.Geocities.ws