Impacto sem ondas

Hélder Bastos, JN, 28 de Fevereiro, 1998

Hélder Bastos, 28 de Fevereiro, 1998

Há doze anos, por altura do último congresso, os jornalistas portugueses desconheciam por completo a Internet. Há dois anos desconfiavam dela. Agora, por vezes, não passam sem ela.

O impacto das novas tecnologias, com particular destaque para a rede mundial de computadores, tornou-se tema incontornável na reflexão sobre o jornalismo. Basta olharmos para a importância dada ao assunto nos mais recentes encontros nacionais. Quer o promovido no ano passado pelo Observatório da Imprensa, quer o que está a decorrer em Lisboa, sob a responsabilidade do sindicato, salientam este aspecto nos lemas escolhidos.

É bom sinal. O problema, no entanto, subsiste em duas vertentes: a da continuidade e a do aprofundamento.

Nas questões gerais relacionadas com o jornalismo, bem como nas mais específicas, onde se incluem as novas modalidades tecnológicas, verificam-se falhas na continuidade da discussão. Isto é, promovem-se encontros, espaços de debate indispensáveis, que só pecam por não serem mais regulares, mas depois disso a classe atravessa longos desertos de silêncio.

Um grupo profissional profundamente heterogéneo, nomeadamente ao nível da formação, continua, por exemplo, sem ter uma revista regular de referência na qual veja reflectidos os múltiplos aspectos da profissão. Isto não é de todo aceitável.

Assim, e compreensivelmente, muitos profissionais porventura não saberão o que se passa ao certo no jornalismo electrónico, ou "online", ou interactivo multimedia, ou digital, e continuarão a mostrar sinais visíveis de desconforto quando ouvem alguém pronunciar a palavra ciberespaço.

Seria necessária continuidade no esclarecimento e debate sobre vertentes tão diversas como a reportagem assistida por computador, a pesquisa de informação em linha, as novas questões éticas e jurídicas colocadas pela utilização jornalística da Internet, o estatuto dos jornalistas digitais (sim, eles existem!).

Depois, era necessário aprofundar, na teoria e na prática, todos estes pontos. Como? Formação contínua, formação contínua e mais formação contínua. Se no jornalismo "tradicional" tocar a profissão de ouvido já é mau, no jornalismo electrónico é péssimo.

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