É com esta ideia que se fica depois de ler uma entrevista do professor de jornalismo norte-americano Jay Rosen, concedida ao diário norte-americano "The New York Times" e publicada recentemente no "Diário de Notícias".
Jay Rosen, também director de um projecto sobre a vida pública e a imprensa, é daqueles críticos que põem os cabelos em pé a jornalistas com ouvido duro para críticas e pouco espaço mental para interrogações.
Apesar das suas teses incidirem, sobretudo, sobre o jornalismo produzido nos Estados Unidos, Rosen deixa pistas para uma discussão que pode ter lugar noutros países, nomeadamente europeus.
Numa das suas ideias centrais, Jay Rosen ataca o coração do jornalismo: a objectividade. Ele acha que os jornalistas devem repensar este princípio, tradicionalmente defendido como uma imagem de marca da classe.
É perigoso e errado, diz Rosen, os jornalistas acreditarem que não fazem julgamentos sobre os acontecimentos relatados e que se limitam a apresentar os factos, distanciando-se deles.
Os jornalistas são muitas vezes acusados de escreverem ao sabor de determinadas tendências ideológicas ou de se envolverem pessoalmente em certos casos. Apesar disto ser verdade, não é o que mais preocupa Rosen. Preocupa-o, sobretudo, certas convenções do jornalismo, tais como o modo como os jornalistas procedem à divisão do Mundo, como enquadram a vida pública dos seus países, como retratam a vida política.
"Há valores e pressupostos escondidos nessas decisões que é fundamental identificar e modificar", defende o professor de jornalismo.
Para Rosen, os jornalistas produzem uma afirmação enganosa quando sustentam que tudo o que fazem é apresentar factos. Afirmação enganosa? Às vezes. Para evitar críticas e fugir a discussões sobre o jornalismo e os seus valores.
Um exemplo. Qualquer pessoa que se dirija a um jornal com o objectivo de apresentar um caso, mostrar insatisfação com alguma coisa, defender uma ideia, corre o risco de ser considerado subjectivo pelos jornalistas. Isto é, o jornalista coloca-se, quase automaticamente, na posição "objectiva" de juiz neutral.
"É assim que um dos efeitos mais insidiosos da objectividade consiste em criar um mundo em que os jornalistas podem viver sem críticas, visto serem os únicos juízes do que é objectivo", sustenta Jay Rosen.
Esta espécie de presunção da objectividade jornalística leva, muitas vezes, os repórteres a fazerem ouvidos de mercador às críticas vindas de profissionais de áreas aparentemente estranhas ao jornalismo.
A objectividade nesta disciplina torna-se assim uma espécie de ritual estratégico, um procedimento de rotina, utilizado pelos jornalistas para se defenderem das críticas exteriores e mesmo dos riscos da profissão.
Como é que o jornalista prova a sua "objectividade"? A partir de um estudo feito nas redacções norte-americanas, a investigadora Gaye Tuchman (1) demonstra que os jornalistas reivindicam a sua objectividade citando procedimentos seguidos no seu trabalho.
Por exemplo, o jornalista John pode dizer que, num artigo sobre as intrigas da Casa Branca, ouviu opiniões de diversos especialistas em vez de dar os seus próprios pontos de vista sobre o assunto.
Num caso conflituoso, em que haja duas ou mais partes com versões diferentes para uma mesma história, John poderá também defender a dama da objectividade dizendo que as ouviu a todas. E qual é a verdadeira? O repórter "objectivo" lava daí as suas mãos.
John poderá ainda arranjar provas que corroborem uma determinada afirmação. Usará sempre as aspas nos seus textos para citar opiniões de outras pessoas. E, por fim, escreverá a sua notícia estruturando-a de forma apropriada, dando-lhe o ar sério da escrita dos acontecimentos reais. Um ar sério e objectivamente subjectivo.
(1) Jornalismo: Questões, Teorias e Estórias, organização de Nelson Traquina, Vega, 1993