A próxima geração

Hélder Bastos, JN, 12 de Julho, 1997
Os especialistas parecem estar de acordo. As próximas gerações vão ler mais jornais. Desde que estes sejam distribuídos por meios electrónicos.

É muito comum ouvir hoje os pais babarem-se de contentes contando aos outros as acrobacias que os filhos de tenra idade conseguem fazer com os computadores. Parece que nasceram para aquilo, exclamam invariavelmente. De facto, a capacidade de adaptação das crianças ao mundo da informática parece não ter limites. Elas não têm medo nenhum de experimentar os comandos e teclas todas de forma a ver o que aquilo dá. Se der para o torto, chamam o papá.

As mais felizardas crescerão à vontade com o CD-ROM, a Internet, a televisão interactiva, os jogos de consola, a realidade virtual. O seu grau de familiaridade com estes instrumentos multimedia, extremamente estimulantes sob o ponto de vista auditivo e visual, será, portanto, elevado.

Não será difícil prever que, quando chegarem à idade de começarem a ler jornais, não lhes vai passar pela cabeça deslocarem-se a um quiosque para comprarem diários ou revistas de papel, suportes com os quais não podem interagir ou manipular de forma satisfatória. O seu espaço natural de leitura será o ecrã, onde esperarão obter notícias credíveis relacionadas com os seus interesses mais específicos. E essas informações deverão poder ser lidas, ouvidas e vistas ao mesmo tempo. Mudará o próprio conceito de leitura.

Perspectivas destas, no entanto, não são sinónimo do desaparecimento dos jornais da face da terra. Continuarão a existir, mas só aqueles que estiverem em constante sintonia com a evolução da sociedade terão hipóteses de sobreviver. Lembram-se do aspecto dos jornais do final do século passado? Uma malha cerradíssima de textos e mais textos, página após página, era a norma. Hoje, a regra é textos, fotografias, gráficos, cores, grafismo atraente, imagem cuidada e agradável.

Os jornais souberam assim adaptar-se a um século marcado pelas imagens em movimento, consagradas nessa poderosa caixa chamada televisão. Agora, é a vez de perceberem bem o significado de paradigmas como multimedia, interactividade, comunidades virtuais, personalização do consumo.

Uma forma de constatar a atenção dada pelas empresas jornalísticas a estas novas realidades é lendo versões electrónicas, na Internet, dos seus produtos. Lá estão desde as maiores do mundo, como o "New York Times" ou o "Herald Tribune", às mais pequenas, como o Açoriano Oriental ou o Jornal da Feira.

São apostas muito inteligentes por parte das empresas. Por um lado, agarraram no seu conteúdo próprio, ou seja, textos e imagens, e colocam-no num meio planetário a custos bastante reduzidos. Por outro, conseguem com isso chegar a uma camada de novos leitores que, em muitos casos, jamais pegarão no exemplar de papel.

De alguma forma, este facto confirma uma tese defendida por Andrew Lippman, director associado do Laboratório de Media do Instituto de Tecnologia do Massachussetts (MIT). Para ele, a próxima geração vai certamente ler mais jornais, mas estes terão de ser entregues por meios electrónicos.

As empresas jornalísticas, essas, diz Lippman, terão de se transformar numa espécie de janela para a "comunidade global", funcionando como veículo desta para além do papel. Felizmente, é já um pouco isso o que está a acontecer.

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