O mundo pula e avança

Hélder Bastos, JN, 21 de Fevereiro, 1998

Sempre que o homem sonha, diz o poeta, o mundo pula e avança. Mas, com a evolução tecnológica estonteante verificada nas últimas décadas, das duas uma: ou os homens andam a sonhar de mais ou o planeta anda a tomar anfetaminas.

Se olharmos para o percurso da humanidade constatamos que, em termos de tecnologias, cada etapa durou sucessivamente menos tempo. Tal como nos explica José B. Terceiro, no seu livro «Sociedade digital», a Idade da Pedra durou vários milhões de anos, mas a seguinte, a do Metal, ocupou um espaço temporal de apenas cinco milhões.

A Revolução Industrial esfumou-se em duzentos anos, a era Electrónica em vinte cinco e a era da Informação já vai em vinte, estando a evoluir muito rapidamente para um estádio dominado pela informação hipermedia, marcada pela conjugação de textos, sons e imagens.

Esta semana, em Madrid, no decorrer de um congresso mundial de utilizadores da Internet, o "Mundo Internet 98", Irving Wladawsky-Berger, da empresa de computadores IBM, apresentou dados que reforçam a ideia da grande aceleração tecnológica ligada aos meios de comunicação.

A rádio demorou trinta anos a chegar a sessenta milhões de casas nos Estados Unidos. A televisão conseguiu o mesmo em apenas quinze. A TV por cabo precisou só de uma década. A Internet, de trinta e seis meses...

A rede mundial de computadores continua a crescer de forma sustentada e imparável, embora seja tarefa algo complicada determinar o número exacto dos seus utilizadores. O ano passado fechou com um balanço aproximado de setenta e cinco milhões. Para o final de 1998, os especialistas esperam pelo menos o dobro.

Estes números dão que pensar. Para os internautas não deverão constituir grande surpresa. Para os detractores deste novo meio, serão cifras provavelmente assustadoras.

Apesar das evidências, muitas pessoas atentas ao evoluir do mundo continuam a encarar a Internet mais ou menos como D. Eurico encara o Diácono Remédios.

Era bom que se percebesse que, do ponto de vista sociológico, há muito a explorar e estudar à volta da dinâmica introduzida na sociedade por esta tecnologia. Desde analfabetos digitais a cérebros da computação, era bom estarmos todos atentos, não só às potencialidades, mas também aos efeitos secundários do novo meio. Porque se trata de um mundo que pula e avança mesmo dentro das nossas casas.

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