Ficheiros directos

Hélder Bastos, JN, 26 de Dezembro, 1998

Lojas de discos cheias de gente em filas para embrulhar pequenos, mas apetecidos, presentes. O som das caixas registadoras a tocar mais alto do que a música de Natal. Promoções e colectâneas, caixas enormes de discos impróprios para oferecer noutras alturas do ano, estão ali todas à mão de semear debaixo da árvore. O cenário repete-se todos os anos. Mas, estará em vias de desaparecer o ritual de andar com gente à volta, à cotovelada, de prateleira em prateleira, procurando o CD ideal?

Há quem garanta que sim. Com o evoluir de certas tecnologias, a par da emergência de novos modelos de distribuição de música, começa a colocar-se a hipótese, naturalmente, especulativa, de as lojas de discos virem a pura e simplesmente desaparecer dentro de poucos anos. O tempo encarregar-se-á de demonstrar se se trata de uma previsão acertada ou de um completo disparate.

Para já, há pelo menos uma certeza: a indústria discográfica está a mudar. Já percebeu que os desafios trazidos pelas novas tecnologias, com destaque para a Internet, onde é possível distribuir, de borla, qualquer tipo de música com qualidade digital, são incontornáveis.

Qualquer utilizador da rede mundial de computadores pode hoje descarregar para o seu computador pessoal ficheiros, conhecidos pela abreviatura MP3, contendo temas musicais de alta fidelidade. Não paga nada por isso e, uma vez armazenados, as músicas podem ser reproduzidas sempre que o cibernauta quiser.

Para aumentar as insónias dos patrões das editoras discográficas, foi autorizada, recentemente, a comercialização de um pequeno gravador portátil de ficheiros MP3. A nova máquina pode guardar até duas horas de música obtida a partir da rede.

Não é preciso fazer elaboradas contas de cabeça para se perceber o quanto esta nova realidade pode afectar o negócio das editoras. Daí começarmos a vê-las consolidar alianças, dantes inimagináveis, com gigantes da informática como a IBM, a Microsoft ou a Toshiba.

Resta, agora, saber como o crescente número de pessoas com acesso às recentes tecnologias «online» vai passar a consumir música. Sob quase todos os pontos de vista, o cenário menos desejável seria a completa substituição do real pelo ciberespaço, da ida à loja pela mera deambulação virtual.

Nesta como noutras áreas em vias de virtualização (cinema, leituras, artes plásticas, comunicação, etc.), a pior atitude do cidadão perante a tecnologia será a rendição total sem questionamento.

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