A recente polémica à volta das mensagens racistas divulgadas, impunemente, através de telemóvel em Portugal ilustra, de forma exemplar, duas coisas. Primeira: as tecnologias tendem a escapar ao projecto dos seus criadores. Segunda: os homens não são, de facto, todos iguais. Uns são bastante mais intolerantes do que outros.
Quem diria que os simples telemóveis, tantas vezes utilizados para tagarelice compulsiva ou para fecho de negócios poeirentos, viessem agora servir para violar, de uma penada, a inteligência e a Constituição. E parece não haver TMN, Parlamento, Instituto das Comunicações ou Procuradoria-Geral da República que consigam chegar para lidar com o deplorável «Mimo» contra ciganos, negros e homossexuais.
Ora, este é, porventura, o aspecto mais perturbante do episódio: a manifesta incapacidade prática da operadora da rede móvel para pôr cobro ao uso indevido da sua própria, e privada, infra-estrutura de comunicações.
Responsáveis da empresa têm explicado à Imprensa que uma só pessoa pode comprar vários «Mimo» para oferecer a terceiros, pelo que não é exequível registar, individualmente, a identidade de cada utilizador. Uma brecha tentadora aproveitada por quem quer fazer traquinices. Por isso, a linha racista funciona, há pelo menos um mês, sem ser incomodada.
Por vezes, as tecnologias proporcionam surpresas muito desagradáveis. A imaginação humana acaba por lhes dar usos completamente diversos dos que presidiram à sua concepção e desenvolvimento. Nas mais recentes, manifestam-se inúmeros factores agravantes, entre os quais merece destaque o da extrema dificuldade do controlo de mensagens postas a circular.
Veja-se o que se passa na Internet. Páginas com instruções para o fabrico caseiro de bombas, incontáveis sítios de fãs de Hitler e negadores do Holocausto, grupos de discussão onde se faz negócio pedófilo, lá podemos encontrar todos os radicalismos censurados nos media tradicionais. Mensagens deste tipo entram em claro conflito com a legislação de vários países, mas também aqui é evidente a quase total incapacidade de resposta.
Tecnicamente falando, a TMN foi apanhada de surpresa. Mas não é caso isolado. Hoje, todos os dias, em dezenas e dezenas de países, governos, tribunais e cidadãos são apanhados completamente desprevenidos pelo evoluir imprevisível dos novos canais de comunicação. É o planeta de calças na mão.