Parece impossível, mas é mesmo assim. Centenas de empresas espalhadas pelo planeta, a par de alguns governos, estão profundamente empenhadas em erguer o mega-shopping do próximo século. À beira dele, Colombos e Continentes parecerão formigas de aviário.
O "edifício" do mega-shopping será a própria rede mundial de computadores Internet. Sem paredes, portas de correr, alarmes ou seguranças munidos de "walkie talkie". Mulheres de limpeza também não precisa. O gigantesco centro de compras virtual terá, não algumas dezenas de lojas, mas sim milhares delas. As suas montras serão feitas à medida dos ecrãs dos computadores pessoais e poderão ser olhadas a partir de qualquer ponto do globo, 24 horas por dia.
Tudo indica que a potencial clientela desta mastodôntica catedral do consumo venha a ser constituída por cerca de 250 milhões de pessoas no ano 2000. A magia disto é que ninguém vai precisar de aturar filas para efectuar pagamentos.
Para enorme desgosto dos cibernautas puristas, a Internet encaminha-se a pulos de canguru para o comércio sem fronteiras físicas de qualquer espécie. Um habitante de Tóquio poderá vir a comprar nas calmas um belíssimo Chevrolet Corvette a um vendedor de automóveis de Chicago sem ter necessidade de sair de casa. Actualmente, livros, discos, programas informáticos e flores já fazem o seu sucesso comercial na rede. Mas ainda são uma pequena amostra. A falta de segurança absoluta nas operações de compra ainda retrai muitas empresas.
Uma espécie de primeira pedra do mega-shopping foi lançada esta semana pelo presidente norte-americano, Bill Clinton. Ele diz querer que as transacções comerciais na Internet sejam isentas de impostos e livres de regulamentações. Óptimo. Eis uma no cravo depois de uma anterior na ferradura: Clinton deve ter ficado muito aborrecido com a recente decisão do Supremo Tribunal do seu país de não impor censura a certos conteúdos na Internet, nomeadamente aqueles considerados obscenos.
A Casa Branca fez entretanto contas à vida e concluiu que, daqui a oito anos, o comércio electrónico já deverá representar qualquer coisa como dez por cento do total mundial do comércio a retalho. Por isso, as autoridades governamentais deverão facilitar a vida aos comerciantes. A propósito, Clinton teve esta tirada monumental: "O comércio electrónico é, de muitas formas, um Oeste selvagem para a economia global. Cabe-nos garantir que ele seja um terreno seguro e estável para aqueles que nele quiserem comerciar." (Público, 03.07.97).
Agora, a pergunta a fazer ao presidente dos States, aqui assim a partir deste cantinho pequenino da Europa chamado Porto, poderia ser: oiça lá, mas alguém lhe pediu alguma coisa? Como pode o governo de apenas um país ter a veleidade de quer tornar "seguro e estável" um espaço desterritorializado e partilhado por mais de cem países? Querem fazer da Internet uma espécie de ONU, submetida aos caprichos e birras de Washington, ou quê?
Vamos para outro campo. O futebol. A Casa Branca chegava à conclusão de que o comércio mundial lucraria muito mais se o desporto-rei da Europa fosse harmonizado com o baseball. Assim, a partir do próximo ano, todos os Jardel, Figo, Cantona, Maldini, Romário, Ronaldo e companhia começariam a jogar de taco e capacete para brilharem nos estádios com belos "home runs", altamente vistosos e lucrativos em termos de transmissões televisivas. Que tal?
Por este andar, vai acontecer à Internet o que tem acontecido a espaços tradicionais de tertúlia e a salas de cinema. Fecham para abrir com escritórios e McDonalds.