Se nos distrairmos um pouco, chegamos a meio do jornal com a sensação de estarmos a folhear o "Tal & Qual", tal a semelhança estilística, desde o grafismo aos títulos.
A primeira página é chamativa e colorida, as notícias são curtas, os temas em destaque procuram dar-nos murros nos olhos como forma de despertar para a leitura: "Vigarice, Deputados dão moradas falsas"; "Justiça abaixo de cão", "Põe-te ao fresco, ó Mobutu" e por aí adiante. Mas, vá lá, sempre existe o cromo das mamocas grandes ao léu na penúltima página, estilo calendário de camionista, para pôr a libido do povão aos pinotes.
A fórmula já tem barbas. Por cá, o "Correio da Manhã" há muitos anos a explora com sucesso. O "Manhã Popular" começa por ser uma redundância no panorama do jornalismo impresso português. O facto de ser redundante em termos de conteúdo, no entanto, não significa que não possa vir a ter sucesso comercial. E, bem vistas as coisas, é isso que interessa aos empresários. Trabalhar para o sacrossanto mercado. Já ninguém faz jornais por arreigadas convicções políticas, sociais ou mesmo jornalísticas. Fá-los essencialmente por cifrões. Hoje em dia, esta é também uma asserção redundante. Paciência.
Portugal tem gravíssimos problemas relacionados com os fracos hábitos de leitura, não só de diários e semanários, mas também de revistas e livros. Em contrapartida, consome televisão até ficar com os olhos do formato do ecrã. Restará aos jornais berrar as notícias para os olhos das massas? Maximizar o apelo à sensação em detrimento da razão? Produtos como o "Manhã Popular" não se limitam a afirmar "Deputados dão moradas falsas". Põem lá o "Vigarice" antes, à "Independente", para que da boca dos leitores fervorosos possam sair expressões acirradas como "Olha os malandros!", "Vigaristas!", "Só querem é tachos!", regados com meia dúzia de palavrões de apurada veia latina.
O "Manhã Popular", no entanto, pode sempre responder aos seus detractores com uma frase puxada para título, na edição número um, da autoria da cantora Lia: "Só sou pimba para ignorantes." Lá fora, parentes afastados deste tipo de jornais continuam a dar as suas pauladas no jornalismo que, coitado, vê-se e deseja-se cada vez mais para lutar contra a voragem do lucro e do poder.
O diário britânico "Sun" é um monstro em vários sentidos. Vende por dia mais de quatro milhões de exemplares e é lido por cerca de dez milhões de almas de Sua Majestade. Não hesitou em dar uma cambalhota política de 180 graus para preservar os seus privilégios, leia-se, os privilégios do dono, o magnata internacional dos media Rupert Murdoch.
"O Sun apoia Blair", titulou, recentemente, a toda a primeira página e em letras gordas, o diário londrino. Depois de, há alguns anos, ter defendido acerrimamente Margaret Thatcher e, mais tarde, ter classificado o actual primeiro-ministro conservador como "dirigente dotado de visão e de coragem", o "Sun" passa-se para o outro lado. A tinta das suas páginas corre desta vez a favor do candidato trabalhista às próximas eleições legislativas. Tony Blair já dera sinais claros de não querer beliscar o império mediático de Murdoch.
Quais as lições a tirar deste episódio? Para Ignacio Ramonet, director do "Le Monde Diplomatique", há duas: "A primeira, política, é que certos partidos sociais-democratas converteram-se de tal forma ao neoliberalismo que se tornaram, aos olhos de numerosos eleitores, permutáveis com a direita conservadora clássica. A segunda, mediática, é que a informação continua a exercer sobre as pessoas uma considerável influência na hora da escolha eleitoral e que essa influência, por vezes, se negoceia."