O livro do desassossego

Hélder Bastos, JN, 31 de Outubro, 1998

O livro do desassossego está a chegar. É electrónico. Portátil. Leve. Tem ar de brinquedo sofisticado. Fácil de utilizar. E, apesar de não ser do Pessoa, pode conter em si todos os livros do mundo.

Já se ouvem no ar trovões promocionais anunciando mais uma revolução. Desta vez, na área do livro. O nosso inseparável amigo das emoções e do saber, das angústias e das efusões, dos bons e maus momentos, está prestes a passar à condição de digital alimentado a lítio. Para desassossego dos que, como Caetano Veloso, cantam: «Os livros são objectos transcendentes/mas podemos amá-los do amor táctil». Para consolo dos ecologistas, para quem livro é árvore morta.

Nas próximas semanas, vai ser iniciada, nos Estados Unidos e no Japão, a comercialização dos primeiros livros electrónicos ou «e-books». Em tamanho e espessura são iguais aos de papel. Podem-se levar para qualquer lado. Sim, claro, também para a casa de banho. Mas, bem vistas as coisas, são mais potentes computadores de leitura, dotados de ecrãs de cristais líquidos, do que propriamente livros.

Cada livro-computador destes pode armazenar o equivalente a quatro mil páginas de texto e imagens. Segundo as contas dos fabricantes, podemos andar com doze romances debaixo do braço ao mesmo tempo. Ou, como prefere Nicholas Negroponte, vamos poder levar uma biblioteca inteira para a cama.

O livro electrónico será o livro que se quiser. Trata-se de um receptáculo para o qual se importam textos disponíveis, por exemplo, em livrarias virtuais Internet. Não ter certas obras em casa quando são necessárias vai deixar de ser problema.

O livro vai conhecer uma revolução comparável à que ocorreu com o aparecimento da entrega de pizzas ao domicílio. Em vez das pizzas, os livros. Em vez do telefone, o computador. Em vez dos «pizza boys», gloriosos malucos das motoretas esqueléticas voadoras em quinta mão, a sofisticada e eficaz distribuição digital em linha.

Não tardarão nada as discussões à volta do hipotético fim do livro de papel, à semelhança, aliás, das especulações em curso em torno do futuro dos jornais. E é precisamente aqui que os mundos da cultura e do futebol, tantas vezes divergentes, se cruzam. O futuro do livro? Prognósticos, só no final.

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