Alguns deste espetos do ofício têm sido denunciados em vários países da Europa. Em mesas redondas, livros e artigos de opinião, sobem de tom as críticas contra a irresponsabilidade da Imprensa. É apontada a dedo a arrogância e o narcisismo dos jornalistas, bem como a sua precipitação na recolha de informações.
Já não se denuncia tanto a sociedade de consumo, mas condena-se a informação e os "media", encarados como símbolos de manipulação e de degradação da vida democrática. A vida política transformada num espectáculo pela mão dos meios de comunicação de massas desencanta muitossectores das sociedades.
Nada disto é extraordinariamente novo. Já no século passado havia gente das letras a escrever contra a Imprensa sem grandes cerimónias, como foi o caso do escritor Balzac, em França, ou do poeta Antero de Quental, por cá.
O que é novo, como opina o professor de filosofia na Universidade de Grenoble Gilles Lipovetsky no seu último livro, é que as condenações dos "media" já não provêem apenas do público, dos políticos ou dos intelectuais, mas também dos próprios jornalistas. Estes passaram a mostrar-se mais preocupados quanto à deontologia profissional e quanto à afirmação de novos princípios de responsabilidade.
Muitos observadores do trabalho da comunicação social estão de acordo: a ética dos "media" está na ordem do dia. Mas também não lhes é difícil constatar que muitas das auto-críticas jornalísticas acabam por desculpar as argoladas dos jornais, das rádios e das televisões.
Isto é, se os jornais erram, a culpa é da necessidade de informar os leitores o mais rapidamente possível. Se dizem mentiras, é porque são vítimas das manipulações e intoxicações deliberadas dos poderes político, económico ou militar. "Preocupada em defender o direito superior à informação, (a Imprensa) é mais dada a desculpar-se do que a reconhecer as suas próprias responsabilidades nos desaires informativos" (1).
Apesar disso, são muitos os jornalistas que não se ficam por deitar culpas aos outros. Admitem os erros e as responsabilidades da Imprensa e defendem um reforço dos deveres profissionais.
Este apelo ganha força numa época em que são denunciadas, em diversos países, novas formas de aliciar e corromper os "media": viagens pagas para "serviços de Imprensa", também chamadas "free bees", avenças especiais pagas a jornalistas, dádiva de pequenos ou grandes presentes, entrega de "dossiers" de Imprensa prontos a usar, entre outras formas fáceis de minar a informação e de enganar o público que a consome.
Não deixa de ser curioso que este tipo de reflexões sobre a Imprensa apareçam num interessante ensaio de Lipovetsky sobre o declínio do dever nas democracias ocidentais neste fim de milénio.
Em síntese, Lipovetsky defende a ideia de que, de há uma dezena de anos para cá, a ética tem ganhado cada vez maior poder, invadindo os "media", as discussões filosóficas, jurídicas e deontológicas. Aponta, como exemplos, as acções humanitárias, a salvaguarda do ambiente, a moralização da política, a bioética, os debates em torno do assédio sexual e do aborto, as cruzadas contra a droga, entre outros.
O autor não se esquece, no entanto, de analisar a contradição de haver, ao mesmo tempo, nos nossos dias, um individualismo cínico, um discurso social alarmista, defensor da falência dos valores.
Para Lipovetsky, as sociedades contemporâneas cultivam dois discursos aparentemente contraditórios. Um, o do regresso da moral. Outro, o do precipício da decandência. Ambos os discursos digladiam-se também no mundo complexo da comunicação social.
(1) Gilles Lipovetsky, O crepúsculo do dever - a ética indolor dos novos tempos democráticos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1994