«O futuro já está aqui, a questão é que não foi distribuído equitativamente.» A frase do escritor William Gibson, citada por Derrick de Kerckhove no seu livro «A Pele da Cultura», encaixa-se perfeitamente no espírito do debate que, no passado domingo, animou um fim de tarde frio e seco em Serralves, no Porto. Falou-se de admiráveis mundos novos e, principalmente, dos que deles ficam de fora.
Kerckhove foi o último dos oradores. Herdeiro e continuador das ideias do teórico da comunicação Marshall McLuhan, o famoso pai da expressão «aldeia global», coube-lhe abordar a relação entre as tecnologias da comunicação e os actuais fenómenos da exclusão. Um tema com pano para mangas que o autor canadiano abordou com entusiasmo e até com um irrequieto sentido de humor, como é seu timbre.
Como seria de esperar para quem acompanha as suas ideias, Kerckhove não caiu na tentação, algo em voga, de afirmar, ainda para mais num debate sobre exclusão, que as mais recentes tecnologias, como é o caso da Internet, se resumem a servir elites endinheiradas e cultas.
Para o académico, as redes mundiais de computadores podem também constituir um factor de inclusão social, apesar da actual distribuição desigual, nomeadamente entre os hemisférios norte e sul do planeta. Outro orador, Emídio Rangel, sublinhara os desequilíbrios tecnológicos e informacionais norte-sul envolvendo os meios de comunicação tradicionais.
A grande diferença entre estes media e a Internet reside na enorme velocidade de expansão do ciberespaço. Kerckhove citou o caso da China onde, num só dia, são instaladas mais infra-estruturas de telecomunicações do que nos restantes países do mundo.
O director do programa McLuhan da Universidade de Toronto acredita na democraticidade das tecnologias da comunicação e da informação que, no fundo, como sublinhava o próprio McLuhan, representam extensões da mente humana. No entanto, o simples facto de a tecnologia chegar a cada vez mais gente não garante apenas resultados positivos para a humanidade.
Em «A pele da cultura», Kerckhove escreve: «Não é o mundo que se está a tornar global, somos nós. Esta é a boa notícia. A má é que cada inovação tecnológica traz uma contra-reacção oposta: a globalização encoraja a hiperlocalização, que em muitas partes do mundo leva a agitação social, vários tipos de racismo e conflitos armados».
Estas e muitas outras questões interessantes são abordadas em «A Pele da Cultura». Um livro a não perder de vista.