Intolerância

Hélder Bastos, JN, 17 de Outubro, 1998

É intolerável a intolerância que a Igreja Católica, em especial o Vaticano, tem vindo a demonstrar relativamente à liberdade de expressão nas artes. O caso mais recente, e polémico, foi o de Saramago. O «Osservatore Romano» ficou-se pelas observações infelizes sobre o Nobel da Literatura. Mas, se por obra e graça do Divino Espírito Santo, pudesse fazer uma fogueirinha, à moda antiga, com o «ideologicamente orientado» «Evangelho segundo Jesus Cristo»...

As religiões monoteístas, como bem assinalou o Parlamento Internacional dos Escritores, têm vindo a acentuar os seus ataques contra todos aqueles que, de alguma forma, as questionam, através do pensamento ou da arte.

Os filmes de Pasolini puseram (e continuam a pôr) Roma à beira de sucessivos ataques de nervos. «Os Versículos Satânicos», de Rushdie, levantaram a ira dos fundamentalistas iranianos. Scorsese irritou crentes com «A última tentação de Cristo», Godard com «Eu vos saúdo Maria», Antonia Bird com a pertinente obra «O padre», exibida há pouco tempo na RTP2. Anos depois do célebre «Pato com laranja», foi Nagisa Oshima a deixar D. Eurico mal disposto com «O império dos sentidos». O cartonista António transtornou almas pendurando um preservativo no nariz do Papa. A cantora Sinnead O'Connor fez o mesmo ao rasgar uma foto de Sua Santidade em frente às câmaras de televisão.

Outra forte polémica está aí a rebentar. Anteontem, em Nova Iorque, manifestantes cristãos, de um lado, e defensores da liberdade de expressão, do outro, trocavam, pelo segundo dia consecutivo, acalorados mimos verbais por causa de «Corpus Christi», peça de teatro acabada de estrear. Nela, o autor Terrence McNally, ele próprio católico e homossexual, retrata Cristo como um «gay» que mantém relações sexuais com os seus doze apóstolos.

Para assistirem às primeiras apresentações, os espectadores tiveram de atravessar detectores de metais. Bolsos e carteiras foram alvo de inspecção. A sala de teatro já recebeu várias chamadas de anónimos que garantiam que todos os espectadores de «Corpus Christi» arderiam num fogo semelhante ao do inferno. Quando a intolerância é pregada por hierarquias, não são de esperar tolerâncias de fiéis.

Diz o ditado que com a fé não se brinca. É bem verdade. Mas com as liberdades de expressão e de criação, que demoraram séculos a vingar e custaram vidas valiosas pelo meio, também não se deve folgar.

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